quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Florescer


O que fazer quando os estilhaços de seu coração cristalizaram e já não há espaço para remediar. Entre masmorras, torres e jardins, a menina da varanda saltou para o infinito e deixou para trás rastros de dor.

Há pouco na madrugada quando o caos é festa e o amanhecer segue impune. O dourado dos seus sonhos reflete os sonhos profundos que alcançara no outrora. Por que escrever detalhes de chagas tão únicas quanto o seu sorriso.

Hoje caminha na companhia segura de uma canção concreta. No entanto, o ontem manchou sua aura e todos os dias parecem clamar por a reconstrução de uma imperatriz bifurcada. 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Uma nova Hera


O seu cheiro invade os campos suaves da alma, que entra em sinfonia a cada encontro com os seus lábios. Os seus braços aquecem o corpo, que treme intempestuoso, ao menor contato. Você, dona dos seus novos passos, conduz a dança ao espaço celeste da sua danação. Você, musa inspiradora eterna e cálida, evoca todas as emoções sonhadas no outrora.

Agora, nessa conquista seleta, despede-se dos agentes funestos da dor, abre as portas para os sorrisos profundos do gozo intenso e profundo, que somente suas mãos podem provocar. Ela é o sol, a tempestade e o vento. Ela é calmaria, destruição, gritaria e silêncio. Ela é complexidade em meio a um mar de interesses sólidos, de dias mesclados de sentimentos, de tudo que a vida pode oferecer.

Neste instante, ri de toda essa entrega. Pulou e nem percebeu, pobre Imperatriz. Mas, não mais se arrepende de se arremessar ao escuro, porque sabe que esse não é o erro fatal. Com os olhos mais abertos, nota a imensidão desta canção que, surpreendemente, veio para ficar. Ela é sua e vice-versa. Todos os pactos rubros de paixão fazem sentido em sua estação. Todas as promessas de girino, transformam-se em jornada e belas vivências.

Contudo, todas as suas palavras arremessadas em seu diário não são sobre a felicidade de um enlace frutífero. É também sobre isso, porém este é mais um pano de fundo para seu relato sobre tesão, paixão, suor e desejo. Quer mesmo é falar sobre movimentação coesa de corpos e gostos, de noites e vontades supridas, dessa correnteza que escorre durante a canção jubilosa e translúcida, sobre a perfeição dos cálices transbordantes. 

Há coragem. Há paraísos descobertos. Há alvorada. Há janela aberta. Há chave na mão. Há sino que ressoa. Há tudo que foi quando não era para ter sido, mas, neste instante, da forma apropriada. É sua, se pertencem. O laço forte dos lábios candentes não se parte ao final da madrugada. Isso já bastaria e existe tanto mais depois disso...

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Outro rumo da alvorada


Ela, que faz aflorar sentimentos loucos, trancafiados no findo do peito. Ela, que com despudor revela suas chagas sem temor. Ela, que não a enxergar senão nas falhas, em um bolo de gente qualquer, em uma sonata quebrada dos que perdem a sanidade muito cedo.

Ela sacode o seu coração sangrando em uma bandeja. Ela despreza tudo que representa, que conhece os atalhos para torturar sua alma, proteger sua sina, elevar seus pecados. Foi ela que ficou do outro lado da ponte e gargalhou porque o pulo jamais seria suficiente.

Mas, foi ela que resgatou suas asas no dia das trevas, no dia do pranto maior, quando quase se perdeu totalmente e para todo sempre. Foi ela que lhe deu luz e um destino que nem sabe que deu. Foi ela que a fez trocar de pele e compreender as sistemáticas de um sistema falho.

Agora, a pune. Lhe esquece. Não se importa. Não se recorda. Pois a outra sim. Porque houve uma aurora resplandescente, na qual a mirada era longa e as vozes ecoavam na madrugada. Isso não se tira. Isso não se termina. Isso se transforma e agora há de saber como lidar com o salto para a alvorada.

quarta-feira, 20 de agosto de 2025

Pés firmes, alma completa


O sol nasce outra vez. Logo depois, ele se põe. Quantas horas faltam para que os seus pés toquem novamente o infinito? O ar some e os dias se alastram. Nada é o mesmo longe dela. 

Em todos os instantes, seus pensamentos se voltam para ela e a tormenta da distância impregna cada respiração. Pode estar feliz ou triste, em suas terras ou em estrangeiras, nada é igual a cidade do castelo.

De certa forma, sente que sua alma pertence ali. Os pássaros cantam mais felizes, o café é mais quente, os passos mais leves, os sons mais belos, o horizonte resplandece e sabe, está inteira.

Há algo de singular naquele solo. Há algo de especial naquela igreja. Há algo único naquela torre. Cada detalhe que compõe a sua simplicidade e magnitude encantam sua existência.

Como regressar? A pergunta é constante e o aperto no coração também. Não existe madrugada mais infiel do que as distante de sua companhia. Não existe acordar mais cruel, do que aquele sem o seu silêncio. 

Precisa de soluções para retornar ao sagrado lugar, circulado de rios. Que a mãe das águas profira, assim, a sentença positiva que tanto espeta. Que os santos, orixás, deusas e deuses escutem seu clamor e que saiba escolher da melhor maneira.

Um dia, o sol será seu outra vez e terá a sua metade da alma completa. Até lá, luta, sorrisos e um tanto de sofreguidão.

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Depois do sopro...







Ela vai escrever sim sobre suas raízes, sobre as cores que a cercam, sobre dias de luz ou de caos incessante. Ela vai recordar do seu sorriso e proclamar para o destino sobre o reencontro. Mas, quem seria dessa vez? Sem nomear a sua canção de outrora ou a de agora, revela pouco para que possa respirar com mais cautela. Ela que é filha do vento, das águas e dos céus, reclama de guardar segredos cobertos com um véu.

Por que parar agora de prosseguir com o seu despudor, se tudo que sonha é cavalgar em sua direção e ressucitar os versos dessa paixão desmedida? Porque sabe que quando pisar nos solos sagrados, sua alma brilhará lancinante e sem gota alguma de horizonte nefasto. Quando as janelas se abrirem e vislumbrar aquele sol radiante, a sua gargalhada será tão profunda, que nenhuma rima poderá abarcar o que habita seu coração.

No fundo da memória, a música do príncipe galanteador ressoa. Nas suas células, a sobrevivência aos males do retorno, vibram cantantes e fagueiras. Afinal, como poderia ser diferente? Escutou os sinos, os pássaros e viu a praça rosada, com flores que cobriam os pés. Ela viu toda a repetição desconexa do destino, que a esperava de braços abertos e um gole quente de café. Depois, nada inútil fazia mais sentido. A fumaça se acabou, a tristeza e o pranto secaram, ela era inteira ali, coberta pelo toque do seu silêncio.

É de ocupar o seu lugar no mundo que está falando. É sobre nada mais importar do que aquele chão de pedra, gelado e cheio de esverdeado de outras eras. É sobre resgatar cada tempestade perdida, para que possa abraçar vorazmente tudo que lhe pertence. Cada caminhada e brisa gélida serão suas. Ela é dona dessa estrada, que jamais irá abandonar novamente. Por isso que os retratos já estão descobertos, os ponteiros alinhados e a névoa desfeita.

Ruma em direção da jornada que lhe pertence. Flutua em novas escolhas para que ganhe a chance de viver com honra, o que foi escrito para ser conquistado por ela. A Imperatriz há de jorrar em flores os seus versos, construindo passo por passo a alvorada planejada na programação. Suspira e encara o quadro, o plano e o deslocamento. Guarda na aura o sussurro sobre sua luz. Ao cerrar os olhos, enxerga o mapa para o regresso.

Sim, é anunciada mais uma véspera de transformação.

Canto para o fim do mundo


O que acontece com toda essa gente

que dizimada comumente

ainda tem tempo para a guerra?


O que há ainda de sede

inescrupulosa e sagaz

que danifica tudo que o Universo traz

que solidifica as amarras do terror?


É dia sim de agradecer quem já não mais erra,

quem chama pelo invisível e pede

que se alastre por toda a nossa terra

mais do que instantes de horror.  




segunda-feira, 3 de junho de 2024

Jubileu…


Finitude e um céu estrelado. A candência se transforma em um empoeirado desejo de permanência. Os olhos reclamam, transfiguram-se, torna-se outros. A voz suave entoa promessas, que soam como vestígios de um passado recente. Quem seriam? Quem é? Quantas estrelas hão de cair até que os pés se banhem de sal, outra vez.

Em um deja vu constante, ela senta, espera e frui o filme da sua vida. Ouroboros. Fim e início. Início e fim. Porque não tão somente de castelos, Imperatrizes e cânticos se constroem horizontes falidos, decrescentes e em constante escassez. Também existe o fruto de sua terra que, emputrecido, decompõe-se em suas mãos, enquanto o dia anoitece e as lágrimas escorrem desesperadas.

Há sentido ainda para alguma canção? Há brilho na aura que resista as chacoalhadas da vida? Há amor incondicional? Há admiração daquelas que são disponíveis? Existe força para compreender que somente as cantigas com dono reforçaram sua alma ensandecida? Por que parar? Por que esperar? Por que ouvir badalas que rompem no peito e se tornam náusea, quando a resposta está bem na sua frente?

As perguntas não têm razão palpável, tampouco reluzem, em véspera de caos. Porque quando a décima nota da sonata ressoar, ela saberá que o pranto foi em vão e todas as certezas estarão confirmadas. Até lá, segue no aguardo de uma nova frase de sentido inefável, proferida no vazio que há em seu peito em chamas. Até a próxima procissão, até a próxima promessa, até a próxima encarnação…

sexta-feira, 10 de maio de 2024

Aquela outra inspiração...

É o mar de Bragança que lhe encanta. Com céus iluminados e a riqueza de sua rigidez sinuosa. É a lágrima salgada em fel, que lhe apavora em véspera de despudor e descaso, por todas as quimeras que hão de vir e por todas as sonatas que não hão de tocar. Em seu quequeísmo pueril, joga-se no abismo da saudade, impunha a sua dor em pleno espasmo, sacrifica a sanidade por uma mera comunicação. E eis que no dia da paixão, saberá se libertar de qualquer amarra do outrora retumbante.

Ela que é filha do vento e dona dos passos aguados dos rios velozes de sua tão amada terra, cumpre os sincretismos calcados no chão de mármore daquela mansão, renega certezas, determinismos e absolutismos, volta para o ponto inicial e os sinos passam a badalar incessantes. Quase zonza com o alarmante som de seu coração, escreve confusa, cheia de emoção, sobre ela, ele e as outras.





Porque a primeira página sempre esteve faltando e já não se importa mais com essa equação. O que é relevante é o agora, solitário, indomável e flutuante. O ontem já é pó, com as manchas cinzentas da verdade. O amanhã é névoa e puro descaso. O hoje não. Este é menino que joga com as flores, brilhantes na alvorada do perdão, do silêncio, das tristezas e alegrias, daquele final derradeiro do dia, de todo consumo de sofreguidão. Ao seu lado sim, agora sente, cada cílio dos olhos vibrarem, cada centímetro da pálpebra a tremer, cada gota de sangue que corre em suas veias.

Ao cerrar os olhos relembra da ceia, dos presentes e do oceano que batia em sua porta. Aqueles dos rostos semelhantes ao seu foram imergindo e ficando apenas na memória seleta de um tempo já morto nesta espaço lógico do Universo. Todavia, os ponteiros do relógio se transfiguram todos os dias e aquele encontro segue em repetição. Quando, então, virou a menina da varanda? Antes ou depois de sua partida? Cronos lhe disse a verdade e foi sincero em suas ações? Ou o fim já estava dado, antes mesmo que pudesse tentar?

Pois, neste instante calorento e pálido, roga aos céus por uma distração, porque a mera recordação de suas impossibilidades lhe trancam a garganta vorazmente. Foste ela enfiada em júbilo infantil ou daquelas que lhe trouxeram apenas perturbação, é chegada a marca certeira dos ponteiros, na qual a água inunda os pensamentos e a salva do desgosto da desistência. Pois fica, até onde eles e elas quiserem, até o espaço recorrente dos horários acertados, dos planos e programações irremediáveis, de um ser, que domina e envaidece apenas pelo encontro de uma canção. 

sexta-feira, 12 de abril de 2024

A dona do Olimpo



O gosto da sua boca é como um paraíso celeste, que casa com seu desejo de visitar novos céus. Seus olhos fixos nos dela fazem a pulsação acelerar e achar novas formas de sanar desejos secretos do corpo e do coração. Quando as suas peles se encontram, é como se suas almas também se encontrassem.

É uma dança em um ritmo compassado, na qual as velocidades são cambiadas e, por isso, o tempo é outro quando está ao seu lado. Enquanto narra seus pensamentos, todo horizonte dentro da Imperatriz resplandece e tudo é festa, é sopro leve, em dias coloridos que já foram cinzas. 

Seu nome é melódico, seu sorriso cativa, sua voz amolece cada fibra que habita sua aura. Ela é uma nova canção, mas é mais do que isso, porque não quer ser. A sua despretensão pretensiosa é um charme inebriante, que faz o mundo se calar e somente o que ela diz importar. 

Cada segundo de sua respiração parece uma dádiva. A existência dela é como um riacho, que banha a alvorada e o silêncio, que transforma e renova, que é calmo, porém jamais irá se arrefecer. E todo o decorrer sereno de suas águas pode virar, ressignificando caminhos e intensidades.

Aí, ela passa a ser correnteza brava, que derruba o que vier pela frente. Esta é a cantiga que ressoa em seus dias agora. E sorri, enquanto escreve em seu diário de confissões. Ainda é cedo, talvez, para um codinome para esta mulher que tem preenchido seus dias de alegria. Talvez.

No entanto, pouco importa como a chamará. O que vale dizer nesta escrita confusa é que ela existe e, porque ela existe, tudo que habita o Tempo e o Espaço é maior, é melhor e mais sincero.

Então, que possa continuar desbravando esse afluente cheio de mistérios a serem desvendados. Então, que seus lábios se encontrem e a mágica continue a acontecer. Então, que viva inteiramente cada trecho desta partitura, que segue orgânica, até o presente momento.

Então, que se encante com cada gesto, com cada nova memória que ganha espaço no seu caminhar. Porque ela é um pouco de tudo que já conheceu e totalmente distinta do que já experienciou. Assim, ela já inicia uma espécie de morada no seu jardim. 

Porque ela é uma correnteza de chances, do que ainda está por vir e do que já foi, em frenesi absoluto, em tons vívidos e tão profundos, que já se sente um pouco sua a cada aurora flutuante. Pois ela tem sim algo de divino em sua existência…Ainda que seja tão humana, tão palpável.

É, ela um manancial de adjetivos tão profundos quanto os seus discursos sobre a vida. Do outro lado, a Imperatriz que a escuta, tão concentrada em seus argumentos, sorri e pensa assertiva: é, ela é uma Olimpiana, só pode ser…

sábado, 6 de abril de 2024

As palavras da Imperatriz


Como seguir, quando o coração está em brasa e, logo em breve, virará pó? Como saber o que espera o horizonte seguinte, se sente uma tontura cambaleante, quando seu nome chega dilacerando a mente? O que esperar de um amor ilusório, que foi construído de más intenções ou confusões de propósito? 

É impossível saber quantos céus cabem neste desabamento compulsivo de emoções, que deixam apenas saudade, medo, angústia e falta de zelo. Cravando a espada final em sua alma despedaçada, ela foi também Imperatriz, como aquela que tanto a amava. 

Mas foi no despudor do verso sinceramente doloroso, que deixou que fosse para nunca mais voltar. As suas vestes cintilantes, na verdade eram fantasia dominante, daquela que controla os seus somente por diversão absolutamente sua. 

Não ouviu, tão distraída, os pássaros soprarem a solução, naquele outono, porque se agarrou na impressão de que as suas frases soltas formavam um sentido. Ela, tão sua, tão fiel, acreditou em cada cartão, em cada sentença escrita em pedaços de papel e abandonou a sanidade, para decifrar mitos, que na verdade eram mentiras. Nunca houve sintonia ou conexão.

O que aconteceu foi um tombo, uma virada de chave, um rompante impactante, de um devaneio sufocante, de um verão que jamais acabará. Por isso, ele, o outono, não mais regressará. Sem jantares, olhares, flores, colares e segredos revelados, os dias desse sentimento estão contados, porque há de arrancá-los do seu peito.

Com coragem em prontidão, lançará mão de todas as forças que habitam o seu corpo, e caminhará de volta por entre os jardins que jamais deveria ter deixado de zelar. Seu caminho é seu e jamais pensou que a sacristã do controle, diria que ela mesma não poderia compartilhar a verdade do que são seus dias. 

Porque se quis tirar até mesmo a metáfora do girassol dela, é porque ela mesma não é o girassol que pensara ser. Ela era miragem. Era pesadelo, trajando vestes de sonho. Agora o infinito se acaba e já não pode ser mais poesia. Todavia, será, na véspera do novo dia, a Sacerdotisa mais iluminada do resplandecer da nova aurora reluzente. 

quarta-feira, 3 de abril de 2024

Mercúrio Retrógrado




Lei do retorno, retrogradações, astrologia, tarô, são tantos auxílios. Mas, nenhum planeta, nenhuma carta, nenhum nada poderá salvar aqueles que não olham para si. Contudo, em uma tentativa de melhorar os rumos da sua vida, colocou a mão em pólvora e explodiu todas as palavras de vez.

A cura virá retumbante, mas não repentinamente. Mas é na coragem que tenta firmar os seus pés. É a única forma que sabe fazer as coisas. Dizer tudo é uma maneira de lançar para outro a responsabilidade? Talvez. Mas, entre erros e acertos, conseguiu concluir o ciclo das quatro cavaleiras do apocalipse. Risos.

É, é bem verdade que deixou algumas outras para depois. O que dizer para a sereia, o florescer e a olhos cor de esmeralda, não é mesmo? Começou pelas mais difíceis e agora tomará um tempo para respirar. 

De um lado, ouviu tudo que precisava, do outro, disse duplamente tudo que esteve sempre engasgado. Ah, a não ser pelo choque cultural, as arestas foram apontadas. Espera que as ações alheias melhorem no futuro. Por elas mesmas. 

Quem já se viu querer alguma coisa que você nunca ofereceu, não é mesmo? No entanto, pouco importa em seus passos o que cantigas antigas quebradas irão fazer com seus discos arranhados e seus príncipes enlameados de controle ou descaso. 


Há uma estrada cintilante, que brilha para ela, pedindo que seja Imperatriz, até se tornar Sacerdotisa. Quem sabe não chegou o momento de finalmente consultar somente a si e esquecer a obsessão por selecionar comandantes para sua jornada. Elas já ensinaram e fizeram a sua parte. Não será injusta. 

E também sabe que, dentro de todo uma engodo e uma rebarba de defeitos e esquisitices, essas canções nunca prometeram o que ela queria. São as musas do sol, que têm esse quê de leonino no mapa, mas sempre com pitada de indecisão, manipulação ou drama. Ar e água banhando uma terra seca e desfalecida, que resseca e torna-se cada dia mais escassa. Sobretudo quando há a audácia de querer controlar o que o outro diz em lugares que não lhe cabem. 

A arrogância é tola, quando os muros desabam e somente existe um rei nu para ser olhado por uma multidão debochada. Por que esta autoridade desperdiça seu tempo olhando para as cartas de um súdito, que se nutre de metáforas, quando poderia notar no espelho que está despido?

Sem o comportamento apropriado, o rei despido está fadado a repetir esses ciclos, que sempre vive. A Imperatriz não julga, porém nunca vira antes atitudes assim de um monarca. Não é possível que seja comum essa troca de intimidades entre integrantes de mundos tão distintos, sem que exista uma fronteira ultrapassada.

Uma vez, uma dessas cantigas disse que todos têm os seus telhados de vidro. É preciso abrir bem os olhos e ter a certeza de quem está com os trajes corretos ou não. Ao mesmo tempo, ela sabe que existem números nessa equação que lutam por suas melhoras mentais e espirituais.

Pelo menos, aquelas que estão fora de jardins hiper protegidos se melhoram como podem. Mas somente a Imperatriz nasceu em solo sagrado, na terra confusa, mas que reserva consigo os maiores guardiões do mundo inteiro. É neles que pensa enquanto finaliza a sua missiva sobre a atividade terapêutica 02. 

É sorrindo também, enquanto pensa como é absurdo como todas elas chegam nesses escritos em algum momento e não param de ler até que não sejam mais assunto. O Devaneios Conscientes é da Imperatriz e de mais ninguém. São seus os devaneios. Bem, e a consciência também. Ainda que em devaneios… 

Se usará termos de sua escolha para falar de futuras amadas, não interessa a ninguém, seja ela borboleta, deusa, sereia ou girassol.  Mas, agora, segue para o que importa para esse blog. Como chamar a cantiga número…número…15? 

Em breve, iniciará a jornada de dissertar sobre ela, porque este diário é real, mas é um tanto fanfic também. A canção nova está tão na realidade, que não precisou de ficção. Todavia, em algum momento irá escrever sobre ela… sobre a musa dos seus sonhos…



segunda-feira, 1 de abril de 2024

Bis dann, Sonnenblumen


Vocês estão sempre ali, como os algozes do seu destino, como os críticos mais ferrenhos das suas decisões. Quem ela é senão a menina morta, que vira bruma e silêncio, em uma tempestade de sorrisos falsos. 

Vocês, príncipes do silêncio e das verdades proclamadas, ainda lhe dirigem escárnio, mesmo que depois de tanto tempo. Mas, por qual razão seguem sendo eles dois os guardas do portal mais alto, que a leva até a deusa do passado? Por que não a deixam em paz, em suas novas cruzadas rumo ao desespero?

Por que precisa ser fada e caminhar pela madrugada, enquanto fuma e se embriaga de veneno despudorado? Ela não quer mais ser a mesma de antes, ela quer fugir, seguir, rumo aos ventos mais alados. Rumo ao castelo lá no alto. Rumo aos braços de sua amada, celestial, doce, verdadeira e firme.

Por qual motivo insistem em segurar seus pés e enterrar sua alma, até a última pá? Por que precisa ficar quando quer partir sem olhar pra trás? Por que ficar? Por que cuidar de todas aquelas cantigas amargas, que insistem em cuspir em sua face e despir as suas veias, até que sangre sem parar?

Tudo que quer é cavalgar rumo ao porto seguro dos seus versos sagrados. Do beijo do girassol que, por mais difícil e tortuoso que seja, rima com sua alvorada, protege-a dos cálices imundos de inverdades cinzentas. As duas e a cidade esverdeada, coberta de flores rosas e cantos de pássaros alegres, vivos, serão mais do que já foram.

É necessário gritar pro mundo sobre as últimas gotas de paixão, desejo, erros, dores, mágoas e impropérios sussurrados nos ouvidos daquelas que foram suas e nunca foram. Pois é na despedida do outrora que quebrará os muros do presente, para vislumbrar o seu eterno futuro. Então, amor, espere, que regressará, quando fizer desvanecer a culpa, a mágoa e as dívidas e dúvidas com as donas do seu passado.

Agora é hora. Resetam os ponteiros e recomeçam a sorte do vencimento do erros. De tudo que é e não mais foi. De tudo que é e já poderia ter sido. De nada que é e jamais será. Corre o tempo, corre o espaço, rasga a pele e transforma-se na Imperatriz dos sonhos dela e seus. Ich komme nochmal wieder. Ich liebe dich, Sonnenblumen. Bis dann, bis immer, bis unsere neues Lebens. 


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quinta-feira, 28 de março de 2024

Kommt…

 



Ah, meu amor, você terá que me buscar, porque, depois do despertar dos sinos, tudo foi em vão. As mágoas cicatrizadas clamam pelo verão interno dos corações pulsantes, que se conheceram em tarde de primavera.

E depois? Você pode até me perguntar. Para onde iríamos quando os oceanos nos separassem novamente? Meu porto seguro é o bater do seu peito, que rima com a completude da minha alma. Seu sorriso contido é anúncio de festa em minha aura.

Então, meu amor, meine Liebe der andere Zeit, anderes Lebens, du musst mir nochmals versuchen. Eu te espero, como espero os pássaros, que me contam sobre seus retornos, quando pousam em minha janela, em uma tarde quente soteropolitana ou em uma noite fria paulistana.

Vem, para mim, sem subterfúgios, sem voltas e revoltas, vem como sempre veio, com uma doçura fugaz, mesclada com uma solidez fria. É o seu jeito e eu respeito. Seus olhos fazem falta, sua companhia faz falta, até o seu silêncio faz falta.

Você e eu podemos ser. Sem mais derrotas, sem jogos, sem promessas, sem segredos. Eu confio em cada gota dos seus versos, que escorrem seletos, por entre os rios do oceano que habita sua mente.

Em sonhos, a gente já acerta o regresso de nossa história, a continuação dos desejos, a concretização das vontades. Não vamos mais atrasar o que queremos. É possível, enfim, desatar estes nós que condenam os nossos passos, que atrapalham nossas verdades.

Você sabe o que eu sinto. Você sabe pelo o que o meu corpo arde e minhas emoções clamam. Então, você, meine kleine Sonnenblumen, precisa vir até a mim, fora dos sonhos, e me contar o que habita esse seu pensamento tão guardado e trancafiado.

Kommt, schneller…

segunda-feira, 25 de março de 2024

Agora vão...







Se os erros do passado cristalizassem os do presente, seria livre, enfim, para seguir por rumos mais floridos. Se as canções não ecoassem em seus ouvidos, poderia garantir a felicidade para aqueles que a cercam. Mas, no portal do Olimpo, avistou o seu olhar desesperançado. Quebrou seu coração remitente, em véspera de tarde cinzenta e de dor. Caso fosse possível enxergar seu coração, veria todo o amor que pulsa nela a cada respirar. Ainda assim, é com a musa do vento que deixa escapar o pior de si, sem seguir para a alvorada.

Ela, que domina os pensamentos e se faz presente em cada despertar, enlameia-se de tristeza quando encontra a imperatriz vestida de fada. Embriagada novamente, de álcool e de mágoas, ceifou de vez qualquer chance de aproximação. Em um profundo rompante de possessividade, queria que fosse sua e já não mais lhe cabia ser. Como deixar que a música cesse, quando o céu ainda permanece estrelado em sua aura? Como parar de repetir a mesma danação de outrora, em um gole só, enquanto não é dia de escárnio?

Somente sabe que a deusa do vento alimenta os seus piores pesadelos, juntamente com o alimento que entrega aos que pouco se importam com o seu caminhar. Quando irá ver que há um horizonte sem chagas, para que possam finalmente trilhar o rumo esperado e programado? Ou todas as suas ações tornam impraticável um retorno mínimo de sua respiração? Por que precisa ser tormento danoso, em uma segunda-feira fria, feia e cinzenta?

Pois queria que fosse eterno o momento que estava ao seu lado, no lugar que mais amam, dividindo os comentários que adoram tanto fazer. Só queria ser outra para que pudesse resetar seu sentimento, que ficou abandonado no passado tenebroso. Todavia, não há retorno e não há salvação. Precisa, mais uma vez, cortar o laço do amor bruto, que lhe rasga a pele e gargalha de sua árdua batalha. Precisa esquecer de vez ela e qualquer outra cantiga que tocou no ontem e já não vai mais ser tocada. É chegada a hora da despedida certeira e única.

Todas irão embora da sua mente e, com isso, a paz reinará. Não existirá deusa, girassol ou borboleta. Não existirá bebedeira, escândalo, raiva ou palavras vociferadas pelo inconsciente. Não poderão mais julgar a sua face zombateira, preenchida de ressentimento pelo abandono. Porque ela sempre avisa e nenhuma delas escuta. Depois, todas partem e, para ela, resta um coração estilhaçado, deixando a certeza de que tudo que pensa de si é verdadeiro. Chega de trajar as roupas de outra menina, que já se foi, com a varanda e os cigarros.

O processo é longo, mas o adeus é o passo inicial. No hoje, a ama, com certeza. No manhã, somente a ventania sabe e dirá com o tempo das deusas celestes, que empregam a calmaria, quando ela mais precisa. Então, que esqueça a noite de sábado e foque em seus versos não poéticos e confessionais. "Há vida para ser vivida e houve a vida que não se viveu". O Tempo, ele sim irá afastar as chagas dessa mágoa mal declamada por uma voz embriagada. Gritou pela partida, clamou para as entidades que lhe acompanham que seus antigos amores fossem embora de uma vez, em um trago só, e elas foram. 

Agora vão. 

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Todo dia, um recomeço




Nos dias ensolarados, que agora viraram pó, tudo era festa e fantasia. De longe, o castelo brilhava em ritmo de alegria, de entorpecente euforia, de sensíveis doses de amor em um turbilhão de sensações regozijantes.

Seus olhos brilhavam, como no outrora enevoado e de cavalgadas celestes. Os fios rubros dos seus cabelos também permaneciam os mesmos. Somente a face da outra que havia mudado tão bruscamente, que não a reconheceu. 

Quando poderiam ter o encontro verdadeiramente prazeroso e permitido? Quando os horizontes irão parar de desabar, para que possam ser apenas sinfonia melódica e não mais desafino? Por que precisa ser difícil e impossível?

Por que não pode carregar consigo o bastão da vitória e o contentamento de ter o amor que pensa merecer? Em seu caminho, não, sempre são as mesmas canções destoantes, dilacerantes, que queimam a pele em véspera de caos. 

Com os olhos ardendo de cansaço, relembra de suas caminhadas e conversas empolgantes. Depois, a melancolia invade e decide que, na verdade, chegou a hora de finalmente fechar a porta, partir e não olhar mais para trás. 

Ainda que a sua falta não seja percebida ou importe para qualquer pessoa que habite este Universo, ela sabe que a derradeira chance do horizonte resplandecido se desmanchou diante das palavras frias e das desconexões políticas entre elas.

Quando que pensaria que seria assim o funcionamento da sua mente? Mas, nada é mais importante do que suas convicções. Além disso, desistiu de ser aquela que proclama as paixões, em doces dias de primavera, empunhando um ramo de flores, um cartão ou um colar bonito que enfeite o pescoço de sua amada.

Todavia, esta não é uma missiva de desistência da vida, dos encantos, dos festejos ou dos amores. Não. Esta é uma promessa de outono, que finca bandeira em seu coração e alma. Aqui, diz ela retumbante, somente as auras intensas, de cores flamejantes e ventos incisivos têm chance. 

Adeus.

A verdadeira missiva

Liebe Sonnenblumen,


There are so many things that I should’ve said to you. But instead, I did a mix of saying too much and too less and forgot what really matters. You and what I think about you. Even if you don’t care, you know? I am a person that says every little thing. I am not one of those who can carry a heavy chest full of emotions.

And I know you do. You control everything and never let the wheel go. You have to take the hands off the wheel sometimes, Schatz. Maybe what is missing on you is what I have in abundance and vice versa. Maybe. Or you just think I am creepy? Do you even give a damn? Probably not! I am sure, absolutely sure, you do not.

Well, there is one truth and that is the fact that is so empowering to just focus on what you really wanna do and be! Life is to short for worrying about giving a answer to society. I do not settle for less. I refuse to do that! I will seek the life that I want and dream. At least, I will know I tried, right? The relationship that I think will be good for me, not in the eyes of others. 

The job I think will be good for me, not for the others. And so on… And here I am, talking about myself, again. Well, I do know you would never trade a bird in the hand for two in the bush, right? Imagine, you! You would never give up on a well positioned man, full of resources, that is just what society think is great. The normative relationship or being a minority?



And there is the vegan style plus sportive life that look so good on the Portraits, right? Lebensqualität, nicht wahr? I am not saying that you are shallow. I am saying you are mature, focused on yourself and on your own rules. You play safe, you wouldn’t risk a millimeter of your life plan for anything in the world. Or maybe I am wool-dreaming. Everything is almost perfect in the scenario you’ve pictured, but I am sure that, with all due respect, on the day that you break this control freak behavior cycle, alles wird gut! 

Aber zunächst sollst du diese Plan versuchen oder? Gut! Keine Sorge! Du bist nicht wie ich, anyway. Vielleicht sind die Frauen nicht ihre Dinge. Alles gut! Aber ich wünsche dir mehr Mut, mehr Spaß, weniger Druck und Kontrolle! Be happy, be you. 

Grüße :) 

sábado, 20 de janeiro de 2024

Pietro e Antonia


Todos os céus de agosto são iguais, porque eles revelam a melancolia que habita as caixas enfeitadas pelo destino. Entre uma mordida de biscoito ou outra, ele já sabia que seu retorno era improvável. Entre a certeza de tê-la perdido e o observar do nascer do sol, descobria um prazer contínuo em reviver o passado. Ou, mais ainda, em imaginar cenários nos quais a clausura, a promessa e a postura não fossem suas obrigações. Afinal, o que seria dela, suas fitas de ouro e seus fios avermelhados naquela aurora tão bela, quanto seus olhos cor de riacho? Ele já não sabia, mas pensava nela...

Antonia era como um girassol flamejante, quase intocável de tanto que se mirava ao sol. Pietro era o túmulo da jazida mais longínqua. Sentia-se tão frio que não recordava a última vez que havia sorrido. Não, na realidade, ele recordava, sim. Ao ver a sua imagem febril, cambaleante, chegando na porta de sua casa, Pietro sorriu. Ela caminhou na sua direção, sorriu também, acenou e disse "bom dia", em um suspiro agudo, seguido de um desmaio. O seu cavalo branco, imponente, relinchava quase como uma canção de lamúria. 

Ainda assim, Pietro sorriu. Ainda assim, Antonia sorriu. Um brinde pelo reconhecimento do passado. Pelo menos era essa a sensação que sentiam, de reencontro, de miragem, de paisagem profunda e bela. O coração de Pietro era incompleto, com um espaço vazio, que fazia ecoar todas as danações mundanas. Apesar de seu posto, ele nunca se importou em deixar se corromper pelos sacrilégios mais sórdidos. Pelo contrário. Mas, ao avistar as suas feições, imediatamente descobriu o que era ser feliz. Não, ele não descobriu, ele relembrou. 


A emoção estava, de alguma maneira, gravada, cravada em sua pele e sua alma. Antonia já foi sua em outra versão. Pietro já foi seu em outra versão. É inexplicável a razão de tal sentimento, porém o é e nada o faria acreditar o contrário. Por isso, ele a acolheu, cuidou de sua enfermidade e vigiou o seu sono, até que o melhor despertar possível se fez presente. Ele jamais sairia daquela torre, se estivesse ao lado dela. Quando Antonia abriu os olhos pela primeira vez, após a queda em seus braços, todo o planeta se iluminou. 

O seu olhar era ainda mais belo saudável, tinha uma faísca de vivacidade, de fervor, algo que Pietro nunca tinha visto em ninguém, nunca. Como ele poderia imaginar que o tempo inteiro, enquanto ele estudava, colhia frutas nas árvores, cantarolava, respirava, dormia e acordava, Antonia já existia, com seus fios rubros e sua face serena, mas agitada, ao mesmo tempo? Aquela moça era uma incógnita, mas aquilo não era nem de perto sua melhor característica. Antonia era sábia, era profunda, era sublime em cada uma de suas imperfeições.

Todavia, naquele instante do despertar de Antonia, após enfermidade, ele nada sabia sobre qualidades e defeitos menos superficiais de sua futura amada. Ele via e descobria, progressivamente, um amor inabalável, que ia abrindo espaço cada vez mais em seu coração. Ainda lhe era secreto o quão iria lhe amar. Por hora, basta saber que Pietro amou Antonia e ela a ele. Com desfecho ou sem desfecho para esta narrativa torta, de um diário de confissões mais torto ainda, é isso que importa. 

terça-feira, 31 de outubro de 2023

Segredo revelado

Quando a montanha tocar o mar novamente, todos os laços selarão o destino abençoado. Em uma manhã já tão esperada, contará os segredos profundos que ela já conhece. Depois, seguirá em paz para suas terras, sabendo que não foi ninguém além dela mesma. Porque é aí que reside a sua paz, na convicção de saber quem é e que segue sempre seu caminho mais verdadeiro.

Por qual razão então duvida que chegará esse dia, no qual as estrelas encontrarão o sol e brindarão juntos o horizonte concreto? Por que é tão difícil assumir a imperatriz que mora em seu peito flamejante e coloca a fada na varada para assumir suas ações? Não, não pode mais. Seu canto é puro e suas preces benditas.

Se o girassol não circular ao seu entorno, saberá, ao menos, que toda canção se desfaz em véspera de sonatas renovadas. Somente haverá transformação quando sair do casulo e revelar para ela a sua verdadeira face, o que está guardado em sua alma, apavorada pela rejeição. A flor não é a borboleta. Cada cantiga tem um tom distinto e ela já sabe disso. Pois que ganhe sua chance de dizer não, que tome as rédeas diretas de suas ações.

Certamente o encontro selará a despedida deste sentimento romântico tolo, que apenas a fez devanear por um tempo. Todavia, a ilusão irá se desfazer e poderá, finalmente, se entregar para uma nova música, sem o peso do amor pela outra em seus ombros. Que venha, assim, o novo dia, a nova prece, os novos caminhos.

sexta-feira, 15 de setembro de 2023

Recapitulando o impossível e inabitábel



Você se lembra? Você se lembra quando a menina jurou convicta que jamais amaria mulher alguma novamente, pois havia encontrado o amor de sua vida e era para todo sempre? Nunca mais existirá uma paixão desmedida que provoque devaneios conscientes como aqueles da alvorada singela, coberta de bruma, ventania e festa, de desdém, descaso e zombaria. Era confuso, não era? Ela menina, você mulher, em sinfonia plena da descoberta. Segurava firme em suas mãos, enquanto a direcionava para o abismo secreto de uma paixão impossível.

Em seguida, percebeu que tudo era mentira e amou outras com toda a intensidade que habita seu coração. Todavia, jamais foi igual, jamais foi a mesma. Consolando seu peito em chagas e chamas, procurou enlaces sórdidos, figuras translúcidas, que desvaneciam ao luar, tal qual o gole de seu entorpecente. Era uma bela dose de conhaque com mel e limão. Como relatar um futuro tortuoso, quando tudo que deseja é criar um vínculo amoroso verdadeiro?

Todavia, agora já tem certeza de que o amor não foi feito para ela. Ele é para as outras, aquelas que amam os príncipes das inverdades, os donos dos privilégios cinzentos, daqueles que elas podem esfregar pelas ruas, em ritmo de festa e tempestade. A menina da varanda está destinada a morrer sozinha, sem que ao menos tenha sentido a reverberação de uma emoção correspondida, mas sem caos e vendaval. Quando foi que começou a virar uma coleção? 

Lembra que veio a princesa flamejante, seguida dos olhos cor de esmeralda. Depois, a menina do silêncio, que ficou no passado, para que a doçura florida pudesse adentrar sua jornada. Foi aí que a perversa amada, fingida de fada, trouxe somente a danação. Enquanto isso, todos os reencontros com a deusa rubra se repetiam, até que chegaram as outras canções e tudo se apagou de sua mente. Entre sereias, borboletas, girassóis, ninfas e rainhas, misturou todos os sentimentos em um só. São todas elas agora uma massa amorfa em seu coração petrificado e estilhaçado.

Quase como em um transe, tenta recordar do começo de tudo, da fuga, naquela noite de Martini e cigarro, quando a deusa lhe salvou da condenação. Quando passou a ser Imperatriz, todo o universo se transformou em pó e uma frieza retumbante tomou conta de sua aura cansada. As janelas estão todas trancadas, os muros altos, as portas lacradas, para todo sempre. Escondida, pode ter a certeza de que jamais irá verter uma lágrima sequer por uma mulher, por mais bela e sensata que esta seja.

No final da tarde, sempre lembra de seu girassol, agora seco e pálido, sozinho, em meio aos dias escassos de seus sorrisos de alegria. Há o vento, a água e o medo, e um riacho imenso de tristeza, por nunca saber como lidar com suas sensações apaixonadas, quando deveria, na realidade, entregar ao Tempo todas as dores que lhe perfuram a alma, como em um tiroteio intenso, numa madrugada.

Mas...Agora finaliza sua missiva torta e mal escrita, para que volte ao seu trabalho, para que finja que não a ama mais. Para que crave um punhal seleto nas memórias de um outrora perdido. Para que perdoe o mal que lhe foi feito, para que encare a rainha da garoa e lhe diga em alto bom som que já não é mais fantoche das indecisas, que não há amam de verdade. É o fim desta fada esverdeada, que clama por atenção. Ela, agora, é mulher com as rédeas. É o ano do carro, é o ano do abandono daquela prisão.

Pois fiquem então com seus carcereiros, pois ela seguiu rumo ao novo dia, que já raia lá fora, com o som dos pássaros e dos cães. Adeus, sonatas falsas incendiadas. Adeus, desonra insensata. Adeus, melancolia pela solidão. 

sábado, 19 de agosto de 2023

Recalculando a rota


Seus olhos profundos deslizam sob o corpo colado no seu. A madrugada seleta, guarda segredos e confissões somente delas. Cobertas de chances, promessas, certezas e desejo que cresce a cada amanhecer, sussurram juras concretas, que jamais irão desvanecer. Depois, chega o silêncio, a distância, a tortura, a realidade congênita que finca bandeira em seus passos e esvazia os sonhos do reencontro.

Agora, desmancha os nós deste regresso, emaranhados nos fios dos teus toques certeiros, que afogaram seu rumo, colocando-a em sua vida, sem que fosse possível caminhar em qualquer outra direção. Agora, reluta para prosseguir, para que o final não chegue e possam recomeçar esse horizonte finito, de um encontro já prometido na programação. Agora, ela já não é mais sua e aguarda a resposta do vento, que clama por ela, na madrugada do seu resplandecer.

Suspira cantando, aquela prece, bem baixinho, pedindo aos céus que a sua presença não seja mais lembrança. Clama aos orixás, ao universo, ao fogo sem chagas, que venha a primavera, que veja sua face em sua frente, para que seja, outra vez, imperatriz e não fada. Em seguida, recorda de toda a sua confusão libriana e desiste de persistir. Respeita a jornada e prefere silenciar um amor que não veio para ficar e sim ensinar alguma sonata qualquer; que ainda não compreendeu. 

No entanto, ela sabe de que nada adiantam as elucubrações, pois as sagradas respostas sinceras se encontram nas escolhas da princesa do castelo da cidade de cinzas. Mas, ela não é poeira e nem garoa. Ela é um poema, sem nenhum sistema, porém que encanta, porque rima com o luar. Por isso, sorri enquanto escreve, nesta data que lhe é tão cara, quando os ponteiros do relógio se ajustaram e ela veio abrilhantar o mundo com sua ternura, compaixão e afeto. 

Que ela seja, assim, tudo que é e veio para ser. Contudo, que antes retorne para seus braços e lhe faça um carinho, que espera não ser um daqueles de despedida. Por fim, recita baixinho o teu nome e aguarda pelo teu retorno.