quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Florescer


O que fazer quando os estilhaços de seu coração cristalizaram e já não há espaço para remediar. Entre masmorras, torres e jardins, a menina da varanda saltou para o infinito e deixou para trás rastros de dor.

Há pouco na madrugada quando o caos é festa e o amanhecer segue impune. O dourado dos seus sonhos reflete os sonhos profundos que alcançara no outrora. Por que escrever detalhes de chagas tão únicas quanto o seu sorriso.

Hoje caminha na companhia segura de uma canção concreta. No entanto, o ontem manchou sua aura e todos os dias parecem clamar por a reconstrução de uma imperatriz bifurcada. 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Uma nova Hera


O seu cheiro invade os campos suaves da alma, que entra em sinfonia a cada encontro com os seus lábios. Os seus braços aquecem o corpo, que treme intempestuoso, ao menor contato. Você, dona dos seus novos passos, conduz a dança ao espaço celeste da sua danação. Você, musa inspiradora eterna e cálida, evoca todas as emoções sonhadas no outrora.

Agora, nessa conquista seleta, despede-se dos agentes funestos da dor, abre as portas para os sorrisos profundos do gozo intenso e profundo, que somente suas mãos podem provocar. Ela é o sol, a tempestade e o vento. Ela é calmaria, destruição, gritaria e silêncio. Ela é complexidade em meio a um mar de interesses sólidos, de dias mesclados de sentimentos, de tudo que a vida pode oferecer.

Neste instante, ri de toda essa entrega. Pulou e nem percebeu, pobre Imperatriz. Mas, não mais se arrepende de se arremessar ao escuro, porque sabe que esse não é o erro fatal. Com os olhos mais abertos, nota a imensidão desta canção que, surpreendemente, veio para ficar. Ela é sua e vice-versa. Todos os pactos rubros de paixão fazem sentido em sua estação. Todas as promessas de girino, transformam-se em jornada e belas vivências.

Contudo, todas as suas palavras arremessadas em seu diário não são sobre a felicidade de um enlace frutífero. É também sobre isso, porém este é mais um pano de fundo para seu relato sobre tesão, paixão, suor e desejo. Quer mesmo é falar sobre movimentação coesa de corpos e gostos, de noites e vontades supridas, dessa correnteza que escorre durante a canção jubilosa e translúcida, sobre a perfeição dos cálices transbordantes. 

Há coragem. Há paraísos descobertos. Há alvorada. Há janela aberta. Há chave na mão. Há sino que ressoa. Há tudo que foi quando não era para ter sido, mas, neste instante, da forma apropriada. É sua, se pertencem. O laço forte dos lábios candentes não se parte ao final da madrugada. Isso já bastaria e existe tanto mais depois disso...

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Outro rumo da alvorada


Ela, que faz aflorar sentimentos loucos, trancafiados no findo do peito. Ela, que com despudor revela suas chagas sem temor. Ela, que não a enxergar senão nas falhas, em um bolo de gente qualquer, em uma sonata quebrada dos que perdem a sanidade muito cedo.

Ela sacode o seu coração sangrando em uma bandeja. Ela despreza tudo que representa, que conhece os atalhos para torturar sua alma, proteger sua sina, elevar seus pecados. Foi ela que ficou do outro lado da ponte e gargalhou porque o pulo jamais seria suficiente.

Mas, foi ela que resgatou suas asas no dia das trevas, no dia do pranto maior, quando quase se perdeu totalmente e para todo sempre. Foi ela que lhe deu luz e um destino que nem sabe que deu. Foi ela que a fez trocar de pele e compreender as sistemáticas de um sistema falho.

Agora, a pune. Lhe esquece. Não se importa. Não se recorda. Pois a outra sim. Porque houve uma aurora resplandescente, na qual a mirada era longa e as vozes ecoavam na madrugada. Isso não se tira. Isso não se termina. Isso se transforma e agora há de saber como lidar com o salto para a alvorada.

quarta-feira, 20 de agosto de 2025

Pés firmes, alma completa


O sol nasce outra vez. Logo depois, ele se põe. Quantas horas faltam para que os seus pés toquem novamente o infinito? O ar some e os dias se alastram. Nada é o mesmo longe dela. 

Em todos os instantes, seus pensamentos se voltam para ela e a tormenta da distância impregna cada respiração. Pode estar feliz ou triste, em suas terras ou em estrangeiras, nada é igual a cidade do castelo.

De certa forma, sente que sua alma pertence ali. Os pássaros cantam mais felizes, o café é mais quente, os passos mais leves, os sons mais belos, o horizonte resplandece e sabe, está inteira.

Há algo de singular naquele solo. Há algo de especial naquela igreja. Há algo único naquela torre. Cada detalhe que compõe a sua simplicidade e magnitude encantam sua existência.

Como regressar? A pergunta é constante e o aperto no coração também. Não existe madrugada mais infiel do que as distante de sua companhia. Não existe acordar mais cruel, do que aquele sem o seu silêncio. 

Precisa de soluções para retornar ao sagrado lugar, circulado de rios. Que a mãe das águas profira, assim, a sentença positiva que tanto espeta. Que os santos, orixás, deusas e deuses escutem seu clamor e que saiba escolher da melhor maneira.

Um dia, o sol será seu outra vez e terá a sua metade da alma completa. Até lá, luta, sorrisos e um tanto de sofreguidão.

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Depois do sopro...







Ela vai escrever sim sobre suas raízes, sobre as cores que a cercam, sobre dias de luz ou de caos incessante. Ela vai recordar do seu sorriso e proclamar para o destino sobre o reencontro. Mas, quem seria dessa vez? Sem nomear a sua canção de outrora ou a de agora, revela pouco para que possa respirar com mais cautela. Ela que é filha do vento, das águas e dos céus, reclama de guardar segredos cobertos com um véu.

Por que parar agora de prosseguir com o seu despudor, se tudo que sonha é cavalgar em sua direção e ressucitar os versos dessa paixão desmedida? Porque sabe que quando pisar nos solos sagrados, sua alma brilhará lancinante e sem gota alguma de horizonte nefasto. Quando as janelas se abrirem e vislumbrar aquele sol radiante, a sua gargalhada será tão profunda, que nenhuma rima poderá abarcar o que habita seu coração.

No fundo da memória, a música do príncipe galanteador ressoa. Nas suas células, a sobrevivência aos males do retorno, vibram cantantes e fagueiras. Afinal, como poderia ser diferente? Escutou os sinos, os pássaros e viu a praça rosada, com flores que cobriam os pés. Ela viu toda a repetição desconexa do destino, que a esperava de braços abertos e um gole quente de café. Depois, nada inútil fazia mais sentido. A fumaça se acabou, a tristeza e o pranto secaram, ela era inteira ali, coberta pelo toque do seu silêncio.

É de ocupar o seu lugar no mundo que está falando. É sobre nada mais importar do que aquele chão de pedra, gelado e cheio de esverdeado de outras eras. É sobre resgatar cada tempestade perdida, para que possa abraçar vorazmente tudo que lhe pertence. Cada caminhada e brisa gélida serão suas. Ela é dona dessa estrada, que jamais irá abandonar novamente. Por isso que os retratos já estão descobertos, os ponteiros alinhados e a névoa desfeita.

Ruma em direção da jornada que lhe pertence. Flutua em novas escolhas para que ganhe a chance de viver com honra, o que foi escrito para ser conquistado por ela. A Imperatriz há de jorrar em flores os seus versos, construindo passo por passo a alvorada planejada na programação. Suspira e encara o quadro, o plano e o deslocamento. Guarda na aura o sussurro sobre sua luz. Ao cerrar os olhos, enxerga o mapa para o regresso.

Sim, é anunciada mais uma véspera de transformação.

Canto para o fim do mundo


O que acontece com toda essa gente

que dizimada comumente

ainda tem tempo para a guerra?


O que há ainda de sede

inescrupulosa e sagaz

que danifica tudo que o Universo traz

que solidifica as amarras do terror?


É dia sim de agradecer quem já não mais erra,

quem chama pelo invisível e pede

que se alastre por toda a nossa terra

mais do que instantes de horror.  




segunda-feira, 3 de junho de 2024

Jubileu…


Finitude e um céu estrelado. A candência se transforma em um empoeirado desejo de permanência. Os olhos reclamam, transfiguram-se, torna-se outros. A voz suave entoa promessas, que soam como vestígios de um passado recente. Quem seriam? Quem é? Quantas estrelas hão de cair até que os pés se banhem de sal, outra vez.

Em um deja vu constante, ela senta, espera e frui o filme da sua vida. Ouroboros. Fim e início. Início e fim. Porque não tão somente de castelos, Imperatrizes e cânticos se constroem horizontes falidos, decrescentes e em constante escassez. Também existe o fruto de sua terra que, emputrecido, decompõe-se em suas mãos, enquanto o dia anoitece e as lágrimas escorrem desesperadas.

Há sentido ainda para alguma canção? Há brilho na aura que resista as chacoalhadas da vida? Há amor incondicional? Há admiração daquelas que são disponíveis? Existe força para compreender que somente as cantigas com dono reforçaram sua alma ensandecida? Por que parar? Por que esperar? Por que ouvir badalas que rompem no peito e se tornam náusea, quando a resposta está bem na sua frente?

As perguntas não têm razão palpável, tampouco reluzem, em véspera de caos. Porque quando a décima nota da sonata ressoar, ela saberá que o pranto foi em vão e todas as certezas estarão confirmadas. Até lá, segue no aguardo de uma nova frase de sentido inefável, proferida no vazio que há em seu peito em chamas. Até a próxima procissão, até a próxima promessa, até a próxima encarnação…