segunda-feira, 9 de março de 2020

Pacto Quebrado




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Ela veio para meus braços. Finalmente caminhou em direção a mim. Chegou. Veio vestida com um véu por cima do rosto. Mal pude ver suas expressões. Era como se nunca tivesse ido embora. A partir dali, era como se todas as noites tivessem se transformado em dia e fosse valsa em forma de poesia. A fantasia era essa. De que seu sorriso era eterno, junto com sua respiração descompassada. 

A música era tão suave que seu coração acelerou. Os olhares nunca mais se perderiam. Era isso que desejava a todo instante, foi isso que lhe foi entregue, sim. Porque implorou para os mares, porque a tormenta de sua boca longe ficar não fazia sentido, porque se aproximou da véspera de seu último suspiro e já sabia a dança final. Quando os pássaros entoarem sua última canção, poderá voar para o infinito e despertar de todas as solidões, entre lamentos e prantos santificados, entre apagamentos e doses inteiras de fel amargurado. 

Resultado de imagem para anjos estatuaO atraso foi por conta de segundos. Contudo, a chegada foi certeira e o derradeiro gole também. Por instantes, encontrou o silêncio, atrás de uma vidraça de cristal. Será que existia de fato? Jamais o saberia. São nos horizontes encharcados de lamúrias que aprendeu a mergulhar. Por isso, a visão turva ficava quando era o momento de dilatar as pupilas. O pulo era maior também. Se a pupila dilatasse para sempre, seria mais fácil.

Mas, o agora... O agora é festa, repete. O agora é flâmula que não se apaga. Cor que não se esvai. Memória que se prende. Vem, para uma eternidade de sorrisos encantados, de madrugadas de serenata, de paixões premeditadas. Mesmo que sejam impossíveis, não deixará que ninguém lhe diga o contrário. Será outra vez aquilo que jurou em meio aos céus desabando que já havia abandonado. Agora, sim. 


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Somente para se afogar


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E então ela foi novamente navegar pelas brumas de melancolia e nadar nas asas candentes de uma sereia nefasta e fantasiosa. E então abriu os olhos e pôde enxergar mais uma vez os prantos singelos derramados por uma festa desperdiçada, por um encanto despercebido. Foi porque acorrentou seus pulsos ao entardecer e prometeu jamais partir em direção do horizonte outra vez. Mas, mordeu seus lábios e sangrou até o infinito e implorou para que voltasse a machucá-la.

É para sofrer que clamava, enquanto o coração era retirado ensanguentado do peito. É para saber se consegue sentir de novo que pede que não vá, que não largue seus braços, que não lhe empurre para fora de seu abismo. Por que pularia sem ti? Por que qualquer coisa faria sentido sem seu cheiro? Por que não acredita em suas ternas palavras, sejam as de amor ou de derrota?

Como conseguira abandonar a estrada desta maneira? É impossível retornar para o outrora celestial. Jamais terá o encontro que possuiu. Agora, a abstinência sufoca, a alma se esvai, as sombras se alastram. Agora, nem caos pode ser, nem chama pode ser, nem dor pode ser, nem sorriso será. É cinza, é pó, é vazio, é derrame de sensações nulas, é apagamento, silenciamento, fuga, relento. São palavras jogadas, é a madrugada solitária, é a pálpebra que pesa, é o julgamento adiantado, é a certeza de que perdeu. 

Finca sua bandeira na despedida, porém volta seu corpo para trás. Quem sabe ainda a chama? Quem sabe ainda a beija? Quem sabe do amanhã?


domingo, 12 de janeiro de 2020

Pelos lírios que não entreguei

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Foi, foi um delírio em formato de canção. Você, que se dizia perfeita em meio às chamas, entoou seu último silêncio gélido. 

Mergulhada em sua frieza cintilante, buscava, desesperadamente, a superfície. Quando aconteceu o encerramento da primavera? Quando seus olhos se fecharam para os meus? Por que suas palavras cessaram e viraram cinzas frias no meio do oceano?

As suas águas banhavam o coração petrificado e tudo era júbilo em sintonia. As tardes eram purificadas com a lembrança de seu cheiro e sua respiração. Agora, arde a saudade atormentada. O passar das horas é funesto e sem melodia. Sufoca até o fim. Pálida, lânguida, em destroços pérfidos e melancolia. 

Ao menos se não tivesse fitado a sua face de menina sereia. Ou sua doçura certeira. Ou suavidade de seu cotidiano sereno. Seria mais. Seria tudo que poderia ser outra vez. Não mais prantos angustiados, caos amargurado ou fantasias estilhaçadas. Pois, a esperança de correr para seus braços, criou a tempestade que se instalou despudoradamente. 

Precisa partir. Precisa deixar. Precisa fugir antes que o frio consuma sua alma. Antes que não possa mais retornar para sua torre. Antes que se afogue em seus rios claros. Antes que seja somente perdição e não mais prazer. 

Vai-te.


domingo, 22 de dezembro de 2019

Enquanto espera...



O céu desceu para que pudesse subir e comungar dos cálices cintilantes, que reluziram diretamente em seu coração. Depois, viu o mundo explodir e o horizonte se perder em chamas. Quando foi que seu sorriso apagou e sua voz deixou de ser terna? Quando a importância da sua presença se findou? 

Segurou-se no topo da torre, é bem verdade. Ao lado de cavaleiros cinzentos e damas possuídas de melancolia, entregou-se com fé para os passantes, buscando evitar o inevitável. Ainda assim, poderia recorrer aos lábios suaves que cantavam em busca do amanhecer certeiro. E esperava que o regresso fosse o resultado, semelhante as águas que banham seus passos, enquanto a lágrima verte pesada. 

A dúvida, no entanto, seria escárnio no outrora. Agora, não. Agora é lonjura, descaso, rispidez. As almas se separam e tudo é pranto seco engasgado e sufocado. Então, fecha os olhos e implora que o vento traga a princesa conquistada novamente. Suplica aos céus que a doçura de sua boca encontre a sua. Pede com toda vontade existente no mundo: Volta! 

E se isto ocorrer, a madrugada será festa e os dias serão mais ensolarados. Porque gargalha enquanto suspende a respiração. Porque seu coração estilhaçado sofre por sua ausência. Porque é tola o suficientemente para confessar o inconfessável: o ritmo de seus sonhos está alinhado com o de seus sentimentos. Sim, é de amor completo que está tentando tratar. Mas, deseja correr para encontrar uma solução para algo suave, porque são sinceras suas sentenças, assim como o abandono da outra.

Agora, é vagar pelo infinito, pelas correntes de dor, até que a tenha em seus braços mais uma vez. 



domingo, 10 de novembro de 2019

Sem sombras

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Ela estava dormindo. Sonâmbula, perambulava pela vida, sem saber o que de fato estava acontecendo. 

Acordou, de repente, e todo o mundo perdido e vazio despertou em seus olhos. Agora, a festa atropelou sua existência, junto com os sonhos, com os destinos torpes e a voz que pede para seguir. A onda violenta de paixões incendiou os seus passos e lutava para sobreviver ao afogamento do cotidiano perfurado.

Há, muito obviamente, a lacuna do infinito, deixado em lágrimas. Assim como a fumaça que havia se despedido e agora retorna para cobrar sua presença. Mas, a verdade é que não deseja mais ser a menina da varanda. Não é mais menina. Faz tempo. Procurou tanto se encontrar, para apenas perceber o quão longe queria estar.

Queria poder fugir no amanhecer. Para outros destinos. Outras fantasias. Outras partilhas. Porém, quer seguir nos rumos conquistados. Aquilo que é tão seu e absoluto. A Rainha rubra que corre enquanto o vento devasta todo o caminho de quem a cruza. Deseja possuir o que habita em sua mente somente, mas já não sabe qual é a resposta correta.

Quando se tornou dúvida? Sabe aquela que criticava? Talvez não. Contudo, se procurar lá no passado não tão longínquo é possível desvendar as peças necessárias para finalizar esta canção. Ou silenciar os versos amargurados. Mas, não é sobre melancolia, solidão ou amargor. Nunca deveria ter sido. E foi até não poder mais. Até que abriu o coração petrificado e buscou moldar cada pedaço seu para entregar para ela toda sua felicidade. 

Sabe quando negou o caos? Logo depois disse sim. Depois não e foi sim novamente. Nessa certeza, engoliu todas as suas verdades e virou outra. No despertar, realizou que sua face real já tinha resquício do outrora rasgado. Ela veio e deixou um pouco de seu fel em sua pele. Por isso, já não sabe. Por isso, quer queimar todas as sílabas e frases que passam por sua mente. Porque as recordações cravadas na aura lutam para lhe contar que não pode mais seguir. 

O retorno das sinfonias proclamam as sinceras sentenças. Não pode. Nunca poderá. No entanto, precisa escolher. E que escolha e faça o que for para se feito. Até o fim. Até o último suspiro cravado com seu nome. 


domingo, 3 de novembro de 2019

Entre o fim, o meio e o começo


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O pulmão pesa. Por que insiste em tocar a mesma canção novamente? Seus dias estão contados, assim como as cinzas dos seus olhos. Já não pode mais sentir, repete para seu coração mais uma vez, suplicando que ele a escute. Sua alma partiu para uma estação nebulosa, sem sinos, sem flores. Petrificou o sangue, que apenas jorrou para lembrar que sinfonias são dores incendiadas.

Foi, porque estava exausta. Abandonou a certeza de que daria certo. Jamais conseguiria celebrar aquele céu em tempestade. Nunca esteve destinada aquele abraço torpe, para aquele sorriso falso. Jamais lhe entregou uma gota de verdade e suas lágrimas secaram, seu corpo desfaleceu. Quase literalmente! E precisou reunir todas as forças que possuía para dizer adeus, sem olhar para trás. 

Porém, não aconteceu apenas assim. O mar invadiu seu peito e viu um horizonte distante cintilando. Numa noite inesperada, conseguiu gargalhar e vibrar como naquele outrora perdido. O que ocorreu? Repetia isto por horas, buscando compreender o que o destino queria lhe mostrar. Encontraram-se e não pôde disfarçar as emoções que chegavam, enquanto o mundo girava e a cabeça também.

Mas, o que será dela agora? Seus dias serão pó? Suas metáforas irão se esvaziar? Porque o caos veio, assim como a batalha vencida e o oceano jorrando em seus pés. Respira e traga seu veneno, que se transformou em tortura. Quem seria ela neste momento? Quem será? O amanhã é incerto e ficam as dúvidas, os clichês e um resquício de candência. Este resto que lembra para sua aura que ainda há um pouco de brasa para o recomeço.


domingo, 27 de outubro de 2019

Cantiga

Resultado de imagem para sabiá Não foi por acaso. Era destino. Sabia. Assim que fitou seu olhar reconheceu que mergulhava em mares revoltos, profundos, aprisionantes. No momento em que descobriu, respirou. Queria fugir, relutar. Mas, não seria possível. Foi de tragos infinitos que sua alma foi consumida. Afundou-se no mel, no céu estrelado e em todos os clichês que havia guardado em um baú eterno de lamúrias.

Agora, já não era mais nada. Era tudo em meio ao pranto, meio riso. E beijos e a falta de lucidez. Pois, o dia amanheceu e reconhecia, é bem verdade: os pássaros abençoaram seu caminho outra vez. Agora, é silêncio, caos, oceano, incêndio não mais amargurado. Não, não quer mais falar sobre derrotas e dores. Jamais quis, porém já não se recorda o que foi no outrora.


A sua voz ainda reverbera em seu peito. A sua respiração também. O último fitar de despedida mais ainda. A reviravolta. O corte para o novo. Ela é isso.O pulsar das horas, o fazer temer, fazer vibrar. Contudo, o talvez seja por demais doloroso para tentar. Ou, talvez já tenha pulado e seja um tanto tarde para os pensamentos da madrugada. Mas, segura as chaves amaldiçoadas. Ela aprendeu, com a outra, a deusa, a esconder o cadeado, bem trancado. Jamais irá crer outra vez. Então, que seja. Que queime de uma vez logo. E esqueça. Ou faça festa.

Já não importa a escrita ingênua, porque viu. Ele cantou e foi. Para todo sempre.