sexta-feira, 25 de maio de 2018

Querubim


Apagou todas as sentenças para que pudesse ser nova. Ser outra. Fez isto para tentar alcançar os clamores do abismo - aparentemente - sensatos dos olhares de sereia. Sim, retornou para a escolha de renascer. Apagou a fumaça, respirou fundo e seguiu para distintos horizontes. Deixou que as máscaras grudassem em sua face mais uma vez. Lembra? Não sabe ao certo a última vez que tinha andando por esta trilha. Já era tão dona de si que a recordação de rostos criados não lhe era fácil de performar.

Porque parece que existe uma lógica de perfeição nas ações cotidianas. E parece também que esta, a menina da varada, não sabe as regras principais para ser boa neste comportamento ideal. Mais um suspiro e mais trezentas rajadas de erros. Mais uma tentativa e será falha infinitamente. 

Contudo, ela sabe o que sempre será seu. Qual o seu verdadeiro destino. 

Mesmo sabendo, decide fugir mais um pouco e ficar dentro deste abismo. Até que alguma primavera a salve.


segunda-feira, 12 de março de 2018

E se fosse poesia?


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Nos dias transformados em pó, o que resta são as amarguras cinzentas de um passado tardio e a vontade de ser o que outrora já fora apagado. Era para regressar e entoar canções que profanassem o passado. Era para ser uma jornada equilibrada e não mais banhada de fel. Era tanto que já não poderia negar o sossego de não ser mais. Era pouco, por isso lhe foram deixando em pedaços, enquanto gargalhavam no golpe final. 
A madrugada já se foi, repete. Precisa acreditar que não existe mais ventania que cure um sorriso perdido. Encontrou as sobras do que fora, sim. Encontrou o resto de gente que ali habitava. Foi porque cada um arrancou um pedaço de sua existência e nada ficou. Foi porque dilaceraram suas verdades, corromperam seu coração, silenciaram a sua alma.

Quando chegou, não tinha mais como respirar. Não tem como ressuscitar os olhos de faíscas cálidas que iluminava os céus cheios de luzes. Sim, um dia foi cor e luminosidade. Quando foi isto mesmo? Na varanda, é bem verdade, deixou os últimos suspiros de resistência. Olha pro futuro com um desgosto estampado na cara e a certeza que nada de bom lhe reserva. Com o sabor do que um dia lhe pertenceu. Com a aura estilhaçada. Foi-se.


Último Ato

Ela já está morta. Desistiu de viver quando entrou naquele jardim. Dali para frente era apenas perdição, delírio e escárnio. Depois de ingerido o veneno não encontrou antídoto que pudesse trazer de volta o júbilo e a coragem que um dia lhe pertenceram. Agora, as sinfonias são nocivas e decisivas. Elas ajudam a enterrar o que restou da menina da varanda. Todas tocam juntas, em homenagem ao seu desespero final.

Não. Não será surpresa alguma quando o último tijolo da torre ruir. Não. Não haverá madrugada, fumaça ou gole de lucidez que a façam regressar. Sua alma cansada e seu coração petrificado insistiram por muito tempo. Já não pode mais continuar. Já não enxerga mais aquele horizonte perdido. Restaram as chamas, aquelas dos zumbis arrastados. Eles venceram, não foi?

A sua carcaça ambulante está virando pó. Já pode sentir a terra cobrindo seus olhos - esta que é mais sincera do que as palavras que lhe foram ditas e prometidas, enquanto o sangue pulsava. Porém, tudo será memória, lembrança e serão palavras falsas. Tudo será discurso vazio. Tudo será mentira. Tudo será em vão. Porque desistiram. Lavaram suas mãos. 






sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Quando o néctar foi fel

É na amargura eterna dos dias que enxerga a salvação. É no canto sinistro do amanhecer que encontra sossego. É no olhar enlameado de descrédito que compreende os próximos passos. É na solidão que decide o rumo da jornada. São neles, nos dias impuros, que reconhece sua verdadeira face. O regresso já é entendido quando aceita que sua torre é feita de fel que escorre da alma. Que é puro veneno tomado em véspera de desespero.

O aviso sempre é certeiro e fiel. Se há a impossibilidade de corresponder mares revoltos tão sinceros é porque já houve um momento de luta interna, na qual apenas a derrota foi invicta. Se agora verte sangue dentro do coração descompassado é porque existiu um dia iluminado para lhe provar que pouco importa a ordem da rima, se no final do verso o mesmo zunido de caos ressoa em suas palavras. Não foi de agora que descobriu a incapacidade de alcançar o final de um horizonte perdido nas fantasias do passado. Não faz muito tempo que sentava na varanda pensando no próximo pulo obscuro.

É, é bem verdade que as sombras lhe são muito caras. É, é bem verdade que tentou escapar como pôde. É, todas as suas falhas tentativas foram em vão, pois quando as luzes se apagam e a noite chega, deita nos braços da inquietude, relembra escárnios vividos, desiste de existir e espera apenas os olhos abrirem e constatar que é dia outra vez.

Porém, por que ainda escreve em versos o que apenas sonatas melódicas podem descrever? Por que ainda deixa que outra música toque quando o desafino é a única certeza até o seu último suspiro? Por que tem tanta certeza das respostas e ainda assim gasta todas as suas energias em perguntas tolas e ventanias sem propósito? Por que abre os abismos se jamais será capaz de pular da forma correta?

Porque há sim uma maneira acertada de pular. Nunca descobriu ao certo. Apenas recolheu retalhos de dor e goles suaves de fim de festa, enquanto mais um trago de fumaça se fazia presente na soma dos dias finitos. 

E deixa que tudo fique sem resolução. E deixa que sentenciem seu destino. E deixa que o desgosto habite sua vida. E deixa que larguem sua mão, rumem para novos espaços, que decidam de uma vez por todas se o sim depois do não vale mais do que qualquer sinfonia mal acabada.


terça-feira, 28 de novembro de 2017

Wind wehen

Foi na varanda, não foi? Ali que tudo começou. Todo esse caos que agora brinda com a madrugada o pacto que fez com sua pele de menina. O veneno, que dos seus olhos correm, dança pela carne amargurada. O pranto é a mais nova corrente que enxágua os passos de sua jornada. Transforma em prosa os escárnios vividos e grudados na memória. Corre em direção do amanhecer em busca de soluções inesgotáveis. 

Porém, não há resposta concreta quando o coração petrificado amolece. Ainda que pudesse acertar a dívida com o vento, não poderia jamais finalizar o débito com o passado. Esse que insiste em lembrar que a noite chega e a solidão não parte. Esse que é dor lancinante em véspera de descaso. Este infinito rubor da covardia anunciada. 

É porque dói somente de pisar naquele terreno que um dia foi sonho. É porque não consegue mais reunir forças para andar quando a memória entorpece os sentidos. É porque a ventania é escassa quando seus pés tocam aquele chão outra vez.

Maldito seja aquele espaço danoso. Aquela aura incendiada. Aqueles sorrisos impuros. Aquelas manhãs impróprias. Aquelas frases murmuradas, aquele jardim, aquele silêncio. Malditas sejam as escolhas profanas ali tomadas. Ou os goles quentes de tempestade e as marcas cálidas deixadas pelos covardes que naquele lugar moravam.

Pior ainda seria dizer que o retorno foi fiel. Pior ainda seria tentar reconstruir o impossível. Mais sincero é seguir, apagar a melancolia, recomeçar e pisar firmemente. Deixar que a música toque bem alto e não se abale. Deixar que o corpo sinta o chão chegar, sem que as verdades sejam escondidas. Dançar até que os pássaros carreguem seus restos e continuem a vibrar com a aurora perdida. Sossegar. 


segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Sommer


Enquanto procura respostas, segue a madrugada incessante. Enquanto não possui certezas, adia os movimentos certeiros, as cantigas melancólicas, as dores eternas, os dias nebulosos e os oceanos que insiste em derramar. Evita não por querer. É bem verdade que já tentou outras vezes. É bem verdade que o ritmo latente de seus passos contaminaram um pouco sua alma cansada. 

Não eram essas as palavras corretas para estarem empilhadas. Não era essa música que gostaria tocar. Ou seria mais um infinito perdão dentro da culpa? Ou seriam seus olhos fechados para o caos que amargurou seu peito e apagou as luzes da varada? Ela ainda existe, a varada. No entanto, não há mais como retornar para aquele lugar um dia tão caro para o coração, hoje quase petrificado.

Não, não é essa a verdade. Por que mentiria se apenas jorra verdade? As questões são demasiadamente amplas e complexas para serem discutidas em uma escrita tão singela. 

É simples porque é o que pode oferecer. É escassa porque o sagrado segredo de sua existência fica guardado na torre, junto com as chaves. Talvez tenha se tornado o que temia, ou talvez seja tão somente um pouco de drama para celebrar a noite solitária. 

Nunca foi tão rápido, correto? O labor das palavras impressas, os batimentos acelerados, o céu em festa. Nunca soube corretamente como expressar o significado de emoções tão banalizadas pelo cotidiano cinzento. Parecia-lhe mais ágil e prático silenciar as vontades e pensamentos, seguir adiante e pular o momento de chegar ao horizonte, apenas se jogar em um abismo sem fim, no qual apenas os sinos tocam e os pássaros caem desfalecidos.


 Contudo, não habita mais em sua lista o desejo de cair. Agora deseja apenas uma estação. Agora todo o caos cessa. Agora, quando escuta sua voz, ela possui todas as verdades que moram no Universo. Agora quando põe os pés na terra, todos os sentidos se afloram. Agora é paz, serenidade e sossego. Agora é rima em vão, porém em sinfonia melódica. Agora é o toque celestial da ventania que lhe pertence. Agora é um sorriso meio sem jeito que reluz juntamente com o sol que lhe foi presenteado. 


sábado, 7 de outubro de 2017

Nectar e fel



Precisa sempre começar por algum lugar. Dessa vez foi o passado que manchou a glória candente de um horizonte que parecia resplandecer. Entre um desatino e outro, busca um gole de respiro, de júbilo, de salvação. Porém, quando seus pés estão próximos do abismo, as torres sobem e trancafiam as emoções puras e doces. A danação está em sua jornada. Seu coração é cinza e danificado pela fumaça que sopra junto com o vento gélido da madrugada.


Por que não pode ser diferente? Por que o destino insiste em entoar canções impossíveis de serem finalizadas? Ou as questões mais reais, concretas e problemáticas são as suas escolhas? Seu olhar inocente é marcado pelo profundo amargor de ser quem é. No final, é uma soma distinta que possui o mesmo resultado.


Ela odeia essa canção descompassada que insiste em fincar morada na alma esmaecida. As lágrimas, outrora derramadas na varanda celestial, secaram junto com as certezas e com a verdadeira face da solidão. Não há escapatória. A soledade está impregnada em sua pele. Mesmo que corra velozmente dos tormentos da desilusão. Ainda que fuja solenemente das torturas das longas frases melancólicas, são os prantos ressequidos que merece. São apenas eles que recebe. 

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Não deveria ser tão árduo. A verdade é que seriam águas cristalinas e reluzentes. Um orvalho adocicado. Um alvorecer singelo e purificado. Mas, aponta em direção do devaneio, das metáforas incompletas, das noites sem fim e pouco seletas. É tolice em demasia e um punhado de final de festa. É porque sabe que falta pouco para escurecer de vez as esperanças singelas de alegria. Sem mistério algum, termina sua junção de palavras mal acabadas. Perde a consciência e segue. Até o último e derradeiro suspiro. Até.