quinta-feira, 7 de março de 2013

Vento


Entre um dia e outro. Quando o mundo parece novo. Muros podem desabar. Singelos, pulsantes, derrubados pelo caos de um sentimento maior. Um suave toque do amanhecer que clama por calmaria, mas somente recebe confusas sinfonias de dor e mares de uma discórdia sem fim. 

E os muros desabam para abrir espaço para outras paisagens, mas as sensações são prolongadas e essas sim duram para toda a eternidade. 

São momentos. São sentimentos e a escrita corre para falar de tudo engasgado que foi gritado numa ébria noite. Para alguns existe uma tensão em seu olhar e desespero por não encontrar soluções concretas, por não ter novos amores e não querê-los. O passado se rasga e permanece colado em sua alma. Reluta, o amanhecer se aproxima e não disse nenhuma palavra que gostaria.

Na verdade há certa raiva por existir tanto cuidado daqueles que a cercam, não deseja isso, não deles. E queria mesmo era que este sentimento viesse de outra direção. E existirá somente silêncio enquanto não sentir que há, pelo menos, um sussurro no ouvido. Que há um real propósito, que existe algo palpável, que não atrapalha o caminho do outro. Ainda que seja um silencioso sim. Ainda que o vento sopre forte. Ainda que a tempestade não cesse.

E que o sim se cubra de flores, de rosas rosas, de perfume da madrugada, de velas que jamais apagam, de fumaça. De gostos já conhecidos, de tudo e de nada. Somente assim, por gosto e vontade e não mais em sonhos e devaneios recorrentes.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Sem som depois do sim



Eu me canso de esperar, mas o coração sempre lembra que existem amores passageiros, outros eternos. Depois de tantas estradas e semblantes, depois de outras aventuras e percursos gigantescos, eis que chega a hora da decisão. Vejo duas estradas que seguem em rumos opostos. Vejo também o brilho daquele cinzento olhar, que virava ouro ao encontrar o meu toque. Porém, tudo é recordação, neblina, memória em cores de um passado ainda presente.

 Sim. Estradas opostas que se cruzam todo instante. Entre um sorriso e outro a enorme alegria, aquela banhada pelo reencontro, aquela que dispara o coração. Ainda que eu emudeça, ainda que as palavras não saiam com este sentindo, todas as sensações percorrem o corpo. Trêmula. Tentando escolher o caminho correto, honrado, preenchido de maturidade e sensatez. Sem esconder o desejo, mas aquietando a concupiscência latente.

 E deixo no passado madrugadas insanas, divertidas, mas também entediantes. Deixo impossíveis relações, nas quais os problemas são maiores que as soluções, deixo, abandono e já não quero mais o cansaço de ter que descobrir qual gesto é verdadeiramente para mim, em qual amanhecer mora a melhor resposta.

Desvio o pensamento de amores. De canções que tocam e já não dizem mais nada. E diminuo o volume da melodia que ainda faz chorar, correr, gargalhar, que ainda faz sentido. No espelho vejo o reflexo de um outrora distante, da menina aprisionada em uma mulher que precisa reinar. São tantos clichês para dizer tão somente uma única frase. Aquela frase que agora fica presa na garganta, que faz engolir seco e não é repetida em voz alta, pelo menos não para paixões rápidas do cotidiano.

 Silêncio. Já está na hora de emudecer outra vez.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

A luz, a cor e a sombra

  Quando o amor pode ser maior que tudo. Quando uma canção eleva a alegria ao máximo. Quando o mundo é maior do que o próprio cotidiano. Ele, no qual as inseguranças escodem qualquer sentimento. 

E sabe que o mais puro sorriso é necessário. Depois vem o vendaval de emoções para que a sensação se perca. Agora é fria e, com um pouco de calor escorrendo de seus pulmões, permanece cambaleante em direção de novas metas.

 Sim. Metas concretas. Sem ao menos lembrar daquela intensidade que mora em seu coração. Todas as melodias pararam de tocar, em uníssono. A canção, que agora toca repetidamente a faz lembrar dos sorrisos mais belos. Ainda mais daqueles que a fez gargalhar novamente. Perdida. Sem rumo. Tropeça na tentativa de alcançar o imperfeito método perfeição. Entre os mares tempestuosos, cobertos de mentiras e impunidades, viu os cálices transbordantes de promessas impossíveis.

 Finalmente as lágrimas vieram. Banhadas agora de melancolia. Não mais de amores incertos. E sim de pequenas dores que destroem o cotidiano, as amizades, as paixões, os trabalhos. Palavras. Eternas. Pois ainda que erros eternos profanassem a jornada, o resultado provou o contrário. Já não mais sabe o próximo perigoso passo. Quais erros se sobressaem e quais verdades prevalecem. Uma face. Um estrondo silencioso de dor. Um trabalho, um desafio, uma melodia e tudo cessa.

 O pranto jorra outra vez. E para aquela que viu sua emoção secar, sentir outra vez é espanto. Porém, sente. Um novo recomeço. Uma batalha sem fim. E as provas precisas de um novo renascer. Sem máculas. Sem míseros olhares falsos. Somente verdades. Implora para o Universo, enquanto desaba nas águas de um choro infinito, que não cessa, que invade sua alma, que deixa impuro os sentidos. E nunca mais esboçará um verdadeiro sorriso, antes de saber se o destino a direciona para as margens sinceras de uma face coberta de bondade.

sábado, 12 de janeiro de 2013

O novo amanhecer


Para qual lugar foi a garota daqueles sonhos esverdeados? O balançar, o toque entre um sorriso e outro. A névoa. Depois, o sol que nasce sempre no mesmo lugar. Os seus olhos brilham e sua voz permanece infinita. Amanhecerá. Partirá antes que a primeira luz apareça. Sempre o mesmo e eterno sonho. Sempre a mesma e eterna emoção.

A canção se repete, assim como naquela noite, mas agora sem a respiração ofegante ou sem a fumaça que insiste em perseguir a existência daquela menina que fugiu da varada. Correu para longe. Agora se esconde dentro de si para que possa criar novas sensações, conhecer outras melodias. E elas vieram e não param de tocar.

A jornada. O doce caminhar pela estrada coberta pelas rosas nas quais um dia se deitaram. A recorrente sensação de ganho e perda. De verdade e ilusão. De uma ventania que preenche suas veias. Não era para ser e era. Foi e já não é mais, contudo é. Ainda. Porque pertence e sabe a razão exata de existir este desejo. E deixa a vontade passar, ou pelo menos tenta.

O novo dia virá. Sempre vivo, intenso, leve, sagrado. As palavras se misturam e cravam cada sentença em sua pele. O brilho cruel do luar singelo. A sinfonia de dores destruída pelos novos encontros, pelas novas oportunidades de receber o nunca antes visto ou encontrado. Perde-se na neblina da escolha, mas porque quer assim. 

Depois apaga. Sorri e desfaz o semblante de tensão, pois chegou o momento de paz. De descansar de toda a euforia, alegria, perda ou engano. Despede-se daquele imenso pranto, do entardecer sombrio antes tão presente. Mas, tudo isso é lento, expurga vagarosamente, para que o júbilo cubra seus passos, como um manto celestial que cairá sobre sua face e não mais sairá. Emudece. A quietude toma espaço em seu coração agora manso. E repete mil vezes tudo isto, até que seja uma verdade absoluta. Se é que esta existe em algum lugar.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Celestial


 Ébria. Mergulhada na perfeição de um momento. Um singelo momento que mudaria suas escolhas e decisões. Se não fosse aquele beijo incandescente da madrugada ou aquele toque inesperado... Agora muda o rumo de seus versos. Agora deseja ainda mais a paz sonhada. É chegada a hora de parar e refletir sobre cada decisão, cada escolha.

 Abandona a fumaça, purifica o corpo e as emoções. Ao abrir os olhos o coração palpita até não mais suportar. A lembrança é vaga, porém há apenas uma certeza. Não há porque prosseguir se já encontrou o melhor. Sim. As dúvidas secam enquanto desfalece perante as novas metas. 

 O perigo do reencontro. As mazelas de um amanhecer tardio, inebriada por uma chama banhada pelo novo despertar. A força das palavras escritas. Secretas. Sagradas. E o silêncio preenchido pela falta de dor e pela tristeza perdida. Não existe mais rancor, melancolia ou angústia. Apenas um sussurro, um gemido, um semblante, um delírio que não tem fim.

 Respira. Fecha os olhos. As gargalhadas cobrem os dias. A concupiscência não é mais sua dona. Fecha todas as portas até que a certa se abra. Até que chegue e mostre o quão é necessário que venha. E apaga as sentenças do passado e deixa o novo se espalhar em sua aura. Adormece clamando aos céus para que aquele deus celeste, morador do Olimpo cálido, retorne sem piedade. Ainda que tão distante, o prefere. E sorri, pois sabe que este é o único perfeito, o melhor, aquele coberto de todas as sensações.

Alcançado velozmente. Corpo e alma candentes, conectados na mesma vibração, juntos numa canção de amor, desejo, paixão, todas as emoções ligadas. Mais uma vez o silêncio escapa. E a névoa da indecisão se desfaz. Cala-se. E nenhum som é mais escutado.


segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Ficção da madrugada


 Silêncio. O coração congela e a alma adormece. Nos seus braços delira e sufoca-se ao mesmo tempo. Amanhece. A brisa do amanhecer refresca as sensações. Sabe exatamente o que fazer. Renega. Quando pensa em cortar as asas de uma vontade intensa algo diz para retornar. Expurga qualquer sensação ruim e parte para o novo caminho escolhido.

Uma espécie de pausa permeia o coração, esse, outrora ensanguentado, violentado pelos dias cinza que viriam. Agora quer paz, verdade, uma sinceridade pouco encontrada. Dói quando o arrependimento é maior do que a causa e já sabe que está certa. Porém, não escuta. Não pode ouvir o último sopro da cristalina verdade sombria.

Seus olhos já não vertem lágrimas. O pulsar acelerado cessa enquanto lembra-se das duras palavras que viriam. O Universo múltiplo e perverso jogou em seus passos a decisão mais difícil existente. O que a alma e corpo desejam contra o cotidiano cru, real, concreto. Basta fechar os olhos e seguir. Basta apunhalar sua própria aura. Esta que precisa de aventuras, de emoções fortes, de intensas relações, de lutas diárias, batalhas imensas desvanecidas em um sorriso de júbilo.

Ainda assim, ainda resta o cansaço dos anos que vieram. Das músicas tocadas. Das melodias escutadas com tanto vigor e sem fantasias. A escrita pulsa forte e não desmerece qualquer tentativa de regresso das canções que insistem em tocar, num ciclo eterno, variando entre alegria e tensão. Mas, na verdade, não precisa existir nada, nem ninguém, nem luz alguma que reflita um intenso olhar quase esverdeado.

Entre fugas e conquistas descobriu a concreta razão vinda da vontade de sentir tão intensamente cada momento. Por isso vieram tantos. Por isso escutou a gargalhada de escárnio vinda de longe. Vinda de tão longe que sentiu o eco em sua pele. Apostou a última moeda há muito tempo atrás, depois cansou de rodopiar em eternos jogos, nos quais existiam apenas perdedores. E perdeu rodadas infinitas de prazer e abandonou promessas sem fim.

Agora é chegada a hora de silenciar a brutal emoção que habita sua carne. Que fazia com que os olhos abrissem todos os dias. Os primeiros passos foram dados, não há retorno, muito menos salvação. Uma decisão precisa ser concreta quando se é tomada. Não há sentido em desfazê-la. Não mais deseja prantos inacabáveis, murmúrios na madrugada, cantos ébrios numa noite sem fim. Não mais.

Sim. As horas correm, a idade aumenta e todo o clichê da vida faz um pouco de sentido. Porque não há maior sensação do que a de escolha certa, de momentos corretos e de encontros perfeitos. Sem esperar, sem angústia, sem tristeza, sem desconfiança, sem deixar de crer naquilo por um segundo. E não falou de si por instante de si. Apenas desse destino que finca sua lâmina afiada na alma, todos os dias, todos os minutos, todos os segundos.

Todos gritam no seu ouvido e já sabe. Sempre soube. Desde o momento que começou a respirar. Nada é por acaso, nada acontece por acontecer e o valor disso só se é sabido quando os anos passam, quando as fidelidades são comprovadas, quando o sorriso é real, quando as palavras que jorram de qualquer boca são puras. E veio. Vem sempre. Esta. Sem ao menos esperar que possa se preparar. E ouviu aquela gargalhada soar, viu aqueles olhos brilharem, fechou a porta e despertou do eterno sonho em que vivia.



domingo, 2 de dezembro de 2012

Até que chegue a paz


  Sábia tentação que desliza aos pés da noite anunciada. Decisões escapam após o leve toque do amanhecer. As escolhas seletas devoram as sensações perdidas. O sorriso delicado reluz nas sombras de um outrora ardente desvanecido. As promessas singelas de um futuro vivenciado. A correnteza segregada pelo silêncio. A aurora fugaz traz de volta a chama antes esmorecida.

 As sinceras sentenças jogadas no horizonte. A força de um momento inesperado. A certeza de um beijo calado pela razão. Negado. Guardado. A candente sensação que insiste em não se apagar. A concupiscência translúcida e firme, sempre presente na estrada reconstruída. O cuidado para não arder na fogueira indiscreta da intensidade.

 Sentimentos sagrados expurgam as dores das emoções deixadas em outro nascer do sol. O jardim coberto de secretos desejos e vontades. A fumaça que se espalha enquanto adormece. O fino som da lança sepultada nas melancolias destruídas pelo júbilo sensato. A calmaria reconhecida após espasmos eternos de dor. Não há mais nada que segure as palavras em sua alma. As perguntas são respondidas por também querer fortemente a paz sonhada.

 O florescer de uma nova jornada começa a tomar uma forma jamais vista. As palavras se juntam e o sentido torna-se claro. Cristalino. Real. Sem ilusões ou meias palavras. Sem prantos cobertos de mazelas tolas. As vontades são supremas, a latente culpa é descartada, a memória reconstrói sentidos e há a descoberta do novo palpitar acelerado do coração ainda ensanguentado, mas que se cura a cada sorriso puro. 

 Sem mais pesares, sem lamentações, sem cobrar respostas. E o mundo nunca saberá os segredos que os mares secretos já começaram a guardar. E nos seus olhos a leve brisa do luar promete as maiores aventuras. Estas que serão vividas somente por aqueles presentes em seu caminhar. E sem esperar, o canto sábio de leveza preencherá a realidade concretizada na pulsação de sua aura e jamais se saberá em que estrada foi procurar o mais doce beijo conhecido.