segunda-feira, 8 de julho de 2019

Pequeno Espasmo

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Alguns vazios jamais se calam. Porque o tempo não volta e os mares já não são mais os mesmos. O outrora é tão distante que o sol já se põe distintamente. 


Os sorrisos secaram junto com o ar de novidade. Agora, o caos é fel em sinfonia incendiada e a memória é embalo da morte da renuncia da jazida da serenidade. Os símbolos intercortados anunciam a derrota das suas certezas, bem como as chagas de sua devoção.

Foi sentada ali, naquele balanço, que conquistou o mundo em uma respiração. Foi olhando por dentro das manhãs que obteve certeza que pertencia à noite.

Aquela da varada, das cinzas, da fumaça, do regozijar de espasmos de júbilos. Depois, a melancolia agarrou seus braços e não mais soltou. Qual seria o objetivo de abrir os olhos sem a necessária verdade no presente tão remediado? Qual fragmento de suspiro ainda cabe para formar o verso impuro e solidificado? Quantas vezes irá precisar pular para que em prantos prometa seguir rumos novos?

Suas repetições são infindáveis, assim como o corte seco na garganta e o nó que se desfaz a cada olhar gélido. As substituições das palavras não reparam as melodias que traziam ritmo e compasso ao coração. Chega o momento de cessar, pois a melosidade é um tanto intransigente e as luzes irão se apagar para que possa fazer festa em seus passos sombrios, em sua solidão demasiada. Comemora! Jamais irá retornar. Nunca conseguirá alcançar. Este Tempo não é para ela. É para outra. São para os outros. Em uma sintonia diversa, em uma alegria perversa, nos céus purificados de dor. 



quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Schwert


Já perdeu a lucidez faz tempo. Não lembra ao certo quando foi. A progressão de sua tortura silenciosa se alastrou em meio ao caos. Por isso, foram incapazes de ouvir e resgatá-la. Ou, assim prefere acreditar. Em suas madrugadas, agora não tão mais longas, engole seco e o gosto de sangue chega aos lábios. Quando o amargor superou o seu desejo de viver? Ainda consegue lembrar-se dos dias iluminados de pó, de varanda e fumaça, de ebriedade e fantasia.

Era porque os pássaros cantavam e entoavam canções de amor. Era porque pensava que sabia por qual caminho seguir. Era porque ainda não havia descoberto como é tortuoso pisar no chão incandescente e respirar o peso das manhãs. Seus sopros se baseavam apenas em sinfonias de júbilo. Pouco em sua trajetória tinha sido de dor. Claro que avistou montes de poços profundos. Desde muito cedo  viu em outros olhares o que agora mora no seu.

Não adianta continuar escrevendo. É simples demais. É intenso demais. É risível. Foi ela mesma quem disse, não foi? A dama ensanguentada. "Você aguenta pouco. Queria mesmo era ser você". Disse, enquanto o líquido rubro escorria na pele. Ainda podia escutar seus gritos. O tempo passou, mas os urros vindos da perfuração ainda ecoam nos ouvidos dela. Então, não pode sofrer. Não lhe é permitido. 

Sabia? Foi o sorriso que lhe foi ensinado. "Balance a cabeça, acene que sim ou que não. Sorria sempre que puder". Nisso, a sanidade evaporou por seus tristes poros e já não sabe a quem pedir socorro. Já está rouca de tanto que implora por ajuda. O horizonte já parte e somente existe como se encaminhar para o final da história. Mas, não é isso o que quer. Não exatamente. Ainda deseja escutar tudo, sentir tudo. De uma vez, mesmo. Porém, de forma indolor. 


domingo, 25 de novembro de 2018

Laith


Resultado de imagem para leão animeNum poço sem fundo, tão tão tão sem fundo, que já não sabe mais como se reerguer. Cega, busca saídas plausíveis para a sua dor. Entrega-se, novamente, para a morte lenta, banhada em fumaça. Rasga o peito em melodia, num soluço funesto. 

É porque é despedida e não sabe fazê-la. É porque rompeu laços que não poderia jamais romper. É porque tentou ser como a sua imagem, porém isto nunca seria possível, pois o outro lado rompe mais facilmente quando esticado. E nesse descompasso estilhaçado, nega a lucidez. Nega a razão e rasteja-se por mais um gole de luz. Já faz tempo que não há escrita que salve.

Mal consegue terminar uma frase. O corpo dói e a alma escorre. O coração acelera e o sorriso não chega. Os olhos procuram, mas jamais regressa. Tropeça no alvorecer, mas suas mãos não estão mais lá. Viu partir metade de si. Foi-se embora sem pestanejar. Ficou apenas a solidão. Sentiu somente o rancor e o silêncio do lado de lá. Suplicou aos seus por forças. Pediu para o destino uma solução. E o Tempo lhe fitou certeiro, chegou o momento da conclusão dos atos, não há mais espaço para os relatos, o amanhecer derruba a madrugada infinita. 

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Ele



Ele. Ele dizia que era prosa e eu verso. Ele dizia que era poesia sempre e eu discordava. Ele era grito e eu ventania. Ele era coberto pelas palhas mais sagradas que este Universo já viu e eu era nada. Eu era pó e cinzas. 

Ele teria me resgatado, não é mesmo? Porque suas palavras cabiam no mundo e eu sou apenas o resto que um dia ele transformou em linhas versadas.

Ele era tudo e eu sou apenas um pouco mais do final de festa que ele nunca viu. E nunca verá. Porque este mês infindável é sobre isso. Ou não. Ou é sobre um caos que ele jamais veria. É sobre a busca que ele jamais encontraria. É sobre as canções que nunca entoariam para ele. É porque ele foi enterrado quando clamou que não.

Ela se lembra bem, não é mesmo? Com seus pés descalços fez de seus prantos fantasia. Buscou o que era impossível e ninguém traria. É inevitável. Ninguém será ele. Por mais que faça o que puder, escreverá sobre o inegável, fugirá das certezas. Ele era único e ela é somente poeira e incerteza.


Jazida


Sim. Ela era incrivelmente romântica. Sim, tudo era fantasia antes do ponto final. É porque sabia escrever em partículas, mas nunca soube dar continuidade para suas canções. Agora, para e busca entender se era de caos, silêncio, calmaria ou vendaval que precisava. Eram daquelas ondas que necessitava, não mesmo? Mas, foi em direção do mais nebuloso futuro.

É bem verdade que sonhou com um quebra-cabeças cheio de ilusões. É totalmente certeiro que desejava um enredo Austen e não Woolf ou Daldry. Foi desta tormenta que tentava fugir. Contudo, estava fadada ao erro e não à comédias românticas de Curtis. Mas, já sabe que tudo isso é besteira.

Porém, nem mais isso pertence a sua realidade. Muito menos tem a capacidade de dissertar sobre tal assunto. Agora, a menina da janela é uma reticência sem fim. Uma frase incompleta. Uma música que tem fim. Não adianta. Não existe valsa que possa salvá-la. É só perdição dentro de perdição.

É apenas uma montanha de não, depois do sim...

É apenas infinito indesejado...

É porque foi. É porque não sabe. É porque os sábios morreram ou dormiram. É para ser nunca mais. E agora jaze no mesmo palácio de outrora.Jazida




sábado, 18 de agosto de 2018

Liebling


Resultado de imagem para tarot enamoradosPartiu em direção ao infinito. Dilacerou seu peito em uma cajadada só. Teus olhos estavam distantes e o sorriso apagado. Quando foi que seus corações cessaram de bater no mesmo ritmo? Em algum momento a conexão ficou para trás, mas este elemento não foi notado. Os passos eram seguidos sem que pudessem respirar.

Agora, de longe, não há mais gargalhadas, abraços, beijos ou amores. Agora, o horizonte se apaga para que venha outra canção. Agora, os mares deixam sua revolta de lado e o azul é apenas imensidão. Os medos congelam, a madrugada é finita, a fumaça perturba. O doce som da sua voz transforma-se em silêncio e gélidas palavras.

Afinal, o que esperava? Era certeza o fim deste precipício. Nunca deveria ter pulado, para começo de conversa. Era tudo apenas miragem e já sabia disso enquanto despencava no vazio. Por isso, recolhe os pedaços de si que ainda restaram após a queda. Cada estilhaço decomposto é procurado com exatidão. O solo, depois da queda, é coberto do sangue que vem da aura e das lágrimas que escorrem em demasia.

Ah! É aquele velho não depois do sim. É o vento que volta a bater na face. São os suspiros de alívio, combinados com as chagas de dor. É o outrora candente que arde no corpo e na mente. É desatino de ser quem foi e é. 


sexta-feira, 25 de maio de 2018

Querubim


Apagou todas as sentenças para que pudesse ser nova. Ser outra. Fez isto para tentar alcançar os clamores do abismo - aparentemente - sensatos dos olhares de sereia. Sim, retornou para a escolha de renascer. Apagou a fumaça, respirou fundo e seguiu para distintos horizontes. Deixou que as máscaras grudassem em sua face mais uma vez. Lembra? Não sabe ao certo a última vez que tinha andando por esta trilha. Já era tão dona de si que a recordação de rostos criados não lhe era fácil de performar.

Porque parece que existe uma lógica de perfeição nas ações cotidianas. E parece também que esta, a menina da varada, não sabe as regras principais para ser boa neste comportamento ideal. Mais um suspiro e mais trezentas rajadas de erros. Mais uma tentativa e será falha infinitamente. 

Contudo, ela sabe o que sempre será seu. Qual o seu verdadeiro destino. 

Mesmo sabendo, decide fugir mais um pouco e ficar dentro deste abismo. Até que alguma primavera a salve.