sábado, 19 de agosto de 2023

Recalculando a rota


Seus olhos profundos deslizam sob o corpo colado no seu. A madrugada seleta, guarda segredos e confissões somente delas. Cobertas de chances, promessas, certezas e desejo que cresce a cada amanhecer, sussurram juras concretas, que jamais irão desvanecer. Depois, chega o silêncio, a distância, a tortura, a realidade congênita que finca bandeira em seus passos e esvazia os sonhos do reencontro.

Agora, desmancha os nós deste regresso, emaranhados nos fios dos teus toques certeiros, que afogaram seu rumo, colocando-a em sua vida, sem que fosse possível caminhar em qualquer outra direção. Agora, reluta para prosseguir, para que o final não chegue e possam recomeçar esse horizonte finito, de um encontro já prometido na programação. Agora, ela já não é mais sua e aguarda a resposta do vento, que clama por ela, na madrugada do seu resplandecer.

Suspira cantando, aquela prece, bem baixinho, pedindo aos céus que a sua presença não seja mais lembrança. Clama aos orixás, ao universo, ao fogo sem chagas, que venha a primavera, que veja sua face em sua frente, para que seja, outra vez, imperatriz e não fada. Em seguida, recorda de toda a sua confusão libriana e desiste de persistir. Respeita a jornada e prefere silenciar um amor que não veio para ficar e sim ensinar alguma sonata qualquer; que ainda não compreendeu. 

No entanto, ela sabe de que nada adiantam as elucubrações, pois as sagradas respostas sinceras se encontram nas escolhas da princesa do castelo da cidade de cinzas. Mas, ela não é poeira e nem garoa. Ela é um poema, sem nenhum sistema, porém que encanta, porque rima com o luar. Por isso, sorri enquanto escreve, nesta data que lhe é tão cara, quando os ponteiros do relógio se ajustaram e ela veio abrilhantar o mundo com sua ternura, compaixão e afeto. 

Que ela seja, assim, tudo que é e veio para ser. Contudo, que antes retorne para seus braços e lhe faça um carinho, que espera não ser um daqueles de despedida. Por fim, recita baixinho o teu nome e aguarda pelo teu retorno.

terça-feira, 11 de julho de 2023

O reset da paixão



Mergulhou em seus olhos profundos, sem saber ao certo qual seria a direção final. Pulou do abismo, um tanto trêmula, porém completamente hipnotizada. Viu seus fios reluzirem, em um dia solar, mas frio, e o seu coração acelerou com aquela visão. Nunca antes encontrou uma canção tão leve e pura. Nunca antes vivenciou este sentimento complexo, que lhe arrebata cada vez mais,  progressivamente e profundamente, a cada nascer do sol. 

Apesar dos conflitos internos, das impossibilidades e da realidade dos fatos, há todo um romance que se desenha em seu destino. Mesmo sem acreditar no amor, agora revisita esta experiência, sem lutar contra ela. Somente deseja navegar por seus braços e sentir sua pele novamente. Somente sonha com o reencontro e o toque dos lábios abençoados. Contemplá-la é como esperar o pôr do sol, é uma crescente reluzente, uma euforia eterna, que não se desfaz.

Com as mãos entrelaçadas nas dela, nada mais importa: todo o horizonte se faz presente, toda música é de celebração, todos os sentidos se conectam, todas as mágoas são deletadas. A aura se torna festa, quando inspira a sua respiração, quando os corpos se encontram, quando o beijo é selado. Porque a princesa das cores é luz que não se apaga, luz eficiente, incessante e inflamável. Ela é um perigo constante, que se faz necessário para que venham os sorrisos. Como poderia imaginar, não é mesmo?

No primeiro encontro, no primeiro olhar trocado, jamais cogitaria a proporção que esta emoção tomaria e o quanto de desejo se espalharia por sua alma, ao fitá-la. Ao menor sinal de sua presença, algo floresce em seu peito, que ferve e borbulha ensandecido, esperando que o contato seja logo estabelecido. Quando está ao seu lado, todos os poemas, prosas, cantigas, palavras românticas fazem sentido outra vez. Quando está do seu lado, pode falar de qualquer assunto, por horas. Nada é entediante, monótono, cinzento. 

Todavia, relembra que existem os desafios, os internos e externos. Procura respirar para que o salto para o abismo não seja um tombo fatal. Contudo, por enquanto, respira e se entrega, recordando de seu sorriso, de seu jeito tão complexo de ser e de habitar o mundo.



quarta-feira, 5 de abril de 2023

Uma chuva, um delírio...



Quantos dias terão que passar até que todo esse sentimento se esvaia? Quantos céus precisarão desabar até que possa encontrá-la mais uma vez? Por que sua face insiste em permanecer em seus sonhos e seu olhar é a sua maior saudade? Por que só possui perguntas vastas e infinitas, quando tudo que deseja é uma paz interior para seguir adiante? Ela conheceu novas terras, não foi? Depois, correu para os braços de sua nova canção e foi feliz naquela derradeira semana cheia de sorrisos, concupiscência e alegria.

Então, como escapar desta sede pelo reencontro com aquela que talvez jamais reveja? Como apagar algo tão inócuo de seu coração, quando a chuva já prometeu que seu destino agora é outro? É, não é? Nunca será sua ou recobrará a sua confiança. Já perdeu e não sabe mais como resetar esse ponto final infernal, que condena cada manhã e anoitecer seu. 

Isto tudo porque a imperatriz, cercada de lírios, clama por um girassol adormecido e distante. Não há alvorada que seja tão doce e feliz, quanto aquela na qual sentiu o seu perfume. A razão é insólita, infiel, desgostosa, triste, verdadeiramente triste. Porque é impossível resgatar o start certeiro, quando tudo era apenas júbilo flamejante. Já não é mais a mesma, tampouco ela, com suas carruagens e cânticos proféticos. 

Não deseja também voltar para as cartas e questionar o Universo o motivo de sua partida. Sem regresso, solução ou consolo, o que ela decidiu foi seguir seus passos e realizar seus sonhos outros, sem aquela que é dona de um amor que é tão indesejado. Porque os sinos badalam e recorda da praça florida, porém está sozinha no agora incendiado. Clama pelo retorno do castelo e dos lagos, mas seus rumos seguem em outra direção. 

Cadê a paz tão almejada, que viu reluzir naquele dia outonal de setembro? Ela foi embora, junto com a dona de seu coração e foi se despedaçando com o caos da revolta pelo retorno. Mas, agora tudo é diferente, não é? Agora, ela conhece o ritmo sensato das direções da vida. Ela renega o que lhe fere e sobe no topo da montanha das conquistas, porque guiou o seu foco para a liberdade. 

Ainda assim, há o vazio deixado por ela, por sua presença, sua voz melódica, os seus pensamentos afiados, a sua delicadeza feroz, a sua existência adocicada e amarga. Tudo em um só corpo, tudo em uma única sonata. Todavia, cansa de escrever e decide encerrar esta missiva torta, jogada ao vento e ao Tempo, nos confins de sua torre colorida. 

Quem sabe a vida volta a ser cores e consiga, em algum momento, ganhar espaço em sua rotina outra vez? Ou quem sabe ela esquece de uma vez aquela felicidade que a condenou a ser incompleta, depois de experimentá-la. Há muito para ser vivido e a Imperatriz está somente começando. Que aguarde então...

quinta-feira, 9 de março de 2023

O sabor



Já era madrugada, quando os sinos tocaram e a lua resplandeceu diante do seu sorriso. Dentro de um encontro tão surpreendente, preenchido de sinfonias melódicas, ela confirmou que o seu desejo não era por acaso. Como em um sonho profético, vislumbrava seu olhar e o corpo respondia imediatamente. Era impossível parar de contemplar a sua face. A sua fisionomia era pura concentração e o mundo se apagava enquanto as suas peles se encontravam. 

No entanto, não quer revelar seus desejos de maneira tão óbvia. Não, a imperatriz gostaria de discorrer sobre esta canção com palavras tão complexas quanto a sua personalidade. É por isso que reflete sobre a sua existência, tomando seus pensamentos como um gole de bebida fervente, que precisa ser aproveitado com cuidado e atenção. Porque ela dona de uma doçura irremediável, mas de uma força interna, que transborda em suas feições.

Ainda há o sabor inesquecível, que a colocou em outro patamar, porque é inigualável a qualquer cálice experimentado. Então, suspirou e torceu para que aquele instante jamais terminasse. Então, mergulhou e deixou-se afogar completamente, em um gosto que ficará gravado em sua lembrança. Por esta razão que se sente saindo de um sonho, com a mente que divaga entre uma memória e outra, com um coração que pulsa na mesma dinâmica daquele encontro. 

E nada foi premeditado. Por acaso, quando já pensava que não poderia trafegar pelos campos das emoções cristalinas, recíprocas e sinceras, achou nela sensações profundas, que mesclam tranquilidade, lascívia, concupiscência, cumplicidade e amizade. Todavia, deixa nítido que não está aumentando a relevância desta paixão, que pode ser muito bem fugaz e passageira, como disseram as cartas mágicas. 

Mas, a imperatriz não se importa mais. Ela não quer saber do amanhã. Ela quer segurar um pouco mais a recordação do sabor incomparável da princesa das cores, dela que é dona de camadas intensas de complexidades, que vão sendo reveladas, lentamente, como em um filme do Zulawski. É, ela também é uma canção. Por isso, no hoje, resta apenas esperar pelo próximo anoitecer, pelo próximo encontro. Por que não, não é mesmo?

segunda-feira, 6 de março de 2023

Sabendo conduzir



Ela é um tanto feita de sal, de brumas e brisas cinzas, da cidade de pedra e asfalto na qual habita. Ela é feita de uma doçura inesgotável, mas de um olhar sedento, que clama pela escuta de suas vontades. Ela é como uma tarde iluminada e preenchida de clássicos hollywoodianos, mas também é anoitecer feroz, em busca de aventuras sem fim.

Em um encontro despretensioso, avistou uma possibilidade longínqua, mas silenciou o desejo. Queria se proteger de qualquer dano, após tantas quedas irreparáveis. Todavia, a imperatriz não quer mais falar das derrotas, das lamúrias, dos descasos, dos desencontros. Ela quer fazer uma ode celestial, coberta de sinfonias e encantos para a princesa das cores. 

No entanto, sua maior vontade era que pudesse descrevê-la sem melosidades ou frases tolas. Mas, já sabe que irá falhar nesta missão, visto que já se derrete completamente a qualquer sinal de recordação de seu sorriso. Também existe o fato de que esta canção foi uma que sempre desejou escutar e que ressoasse por todo canto. Então, naquela madrugada surpreendente conquistou uma de suas maiores vontades.

Então, depois de tudo, o que dizer senão uma junção de palavras amontoadas e confusas? É impossível relatar tamanho júbilo e contentamento em seu diário de confissões. Mas, ela não pode se entregar por completo, porque esta história tem pontos, que não são de continuação. Eles podem se transformar em reticências, porém apenas de quando em quando. Talvez, por isso mesmo que seja tão libertador esse encontro.

Ele é o que é e nada mais. É um sopro do destino, um vendaval que cessa para que a onda venha, uma badalada de sino, para que se recorde como era sorrir, em meio aos rios de concupiscência, que banhavam a face, juntamente com o cálice transbordante, com o melhor gosto já provado. É para ser desta maneira, uma melodia inefável, com gotas de horizonte.

Este pode ser um vislumbre do tanto que ainda há para ser vivido nesta vida que quase abandonou. Mas, o que resta dela então? A memória. Resta a memória de um sorriso, de um olhar cúmplice, de tons aveludados de uma voz suave, mas firme, de toda a entrega veloz, que é em si uma novidade para a imperatriz. Ela estava ali, não foi? 

Toda a jornada reluziu juntamente com o desejo que pulsava na pele. O depois já não importava quando o amanhecer foi alegre e compartilhado. E agora? Agora o ritmo de seu coração é outro. Agora, a plenitude domina os dias, as sílabas, as esquinas soteropolitanas, os oceanos translúcidos de suas terras, o sangue que ferve a cada lembrança intensa de sua vivacidade, imponência e presença que seduz. Já era para ser e foi. Então, que continue neste caminho, sabendo conduzir…

sábado, 25 de fevereiro de 2023

Abençoada e sábia



As flores sumiram, caíram todas e, pétala por pétala, levaram seu amor para longe. Como dizia seu pai: “não importa que o rádio renitente ruja”, pois não é mais véspera de encontro e, agora, todos os céus lampejam pela revelação anunciada de sua ausência. Com o seu sorriso cravado na memória, reza baixinho, clamando por uma resposta qualquer do Universo.

Depois, deixa que a celebração fervorosa da vida limpe a tristeza colossal, preenchendo-a com um novo significado para o outono que há de chegar. E é assim que seu rosto desvanece da lembrança, progressivamente, em um canto febril, em uma madrugada de pesadelos lancinantes, em beijos casuais em meio a chuva, em cada gole gelado de cerveja. 

Todavia, o sentimento persiste, assim como a vontade de esquecer seu nome, sua voz, sua gargalhada, seus abraços, seus olhos de lince e todas as suas palavras banhadas em doçura e fel, naquela complexidade que somente ela sabe entregar. Então, por isso que foi preciso deixar tudo para trás. Afinal, sua importância é menor para ela. Então, por isso que respirou fundo, para ver novos horizontes.

Foi feliz outra vez! E traz a constatação em uma exclamação, porque jamais pensou que o seria novamente. É, “são tal hora e tal minuto”, sem nada oficial, nem mesmo a paz que é tão exata. Sem tic tac, sem sinos, sem rios que desaguam em desespero, sem os sons que anunciavam a sua chegada, sem eles, sem poesia. Mas, caminhando, com toda fé de que a revoada ressignificada dos pássaros virá e, aí, tudo será prosa eterna, em meio aos lagos da sua alma.

domingo, 5 de fevereiro de 2023

Revirando a sorte

 


O som se põe, as flores rosadas desaparecem, mas os sinos não tocam. A estação está prestes a mudar, os pássaros vêm e vão, mas os sinos não tocam. Os olhares se encontram, os risos se espalham, a poeira toma conta das cartas e dos cartões, mas os sinos não tocam.

Quando hão de tocar? Se seus lábios rubros despejam palavras doces e a madrugada entrega sonhos preenchidos de sua companhia, por que não deixas que os fios vermelhos, que lhe cobrem a face, derramem em suas mãos, para que o beijo seja então selado? 

Quando calor, frio, mares e tempestades irão se encontrar novamente, para que todos os horizontes ganhem sentido outra vez? Seria possível eliminar as perguntas e encarar de vez, em um só trago, que seus destinos se cruzaram e agora serão habitadas por uma saudade infinita? Na verdade, talvez, esteja enebriada por sua imagem e tenha perdido os sentidos, enquanto escreve.

Mas, é que lembrou das árvores cinzas, que despejavam beleza, ao escutar a sua voz cantarolando alguma canção tola. É que fitou seu olhar ansioso, ouviu a sua fala afiada e sentiu a pupila dilatar. Ela é sua, ainda que em um mundo paralelo, coberto de folhas deixadas pelo outono e pelo vento frio - daqueles que fazem o passo acelerar.

Ela é sua, dentro do seu coração apaixonado, que não consegue ver graça em nenhuma outra mulher que não ela. Ela é sua, na madrugada febril, às 4 da manhã, quando a pulsação acelera e já não sente mais medo de amar. Ela é sua, até que desperte de seu devaneio de imperatriz teimosa. 

Depois, reconhece que ela floreia por outros campos, entrega-se para outras terras, abraça o cavaleiro sonso, presa nos trilhos que a enclausuram. Foi a sua amada que construiu seu próprio cárcere, feito de metal, neve, faíscas e pavor. Foi a sua amada que não lhe disse uma palavra de despedida. 

Foi a sua amada, que nunca foi sua na realidade, que cravou um punhal certeiro na alegria, que um dia ela mesmo desenhou em seus caminhos. Por isso, nunca mais terão suas longas caminhas, as confissões e os olhares cúmplices trocados. Nunca mais confiança, segredos e conexões intensas. Nunca mais gargalhadas que preenchem jardins e lábios que umedecem ao mínimo sinal de reciprocidade. 

Nunca mais. Agora, resta tão somente o aguardo para o próximo sinal do relógio. Já é hora de se despedirem de novo, para que venha um outro ciclo extenso, para uma alma dividida em duas.