domingo, 16 de março de 2014

Sobre uma possível lua na face

 É um pouco de cinza. É o fim da madrugada. Quando o tédio habita a sua estrada. Enquanto para uns aquilo é festa. Enquanto para uns o mundo gira no júbilo encharcado de água salgada... 

Porém, seu oceano é a ventania que transborda de sua aura. 

E a fumaça se afasta para que venham as flores sepulcrais. E o vento se tranca numa torre ainda mais alta que a de outrora. Sim. A cada passo diminui a distância entre os pés e o precipício. Agora, sem o néctar que espalha a concupiscência no ar, sem o veneno celestial, acolhedor, perturbador, sensato, violento, santificado.

O tempo gira. O ciclo se refaz. Os olhares não se encontram. A imaginação corre leve, solta, pura, cristalinamente adocicada. A inspiração amordaçada corta os véus impuros do pudor. Agora não mais acorrentado voa em direção do tão conhecido poço. 

Deseja pular. Com todas as forças prefere o abismo. Sim, os olhares não se encontram. Sim, o fel escorre nas ondas douradas de uma divindade disfarçada. Sim, não pula, pois as rochas, fincadas firmemente na terra, prendem seus pés.

Agora já não sabe se é terra ou ventania. Abismo ou calmaria. Já não sabe se há realmente uma dúvida e qual seria ela afinal. E escreve... sem fumaça...sem tanta inspiração...mas sem perder de vista o abismo que tem como ponto final a varanda em noite de lua cheia.



segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Verde

Queria mesmo que o vento a pertencesse hoje. Queria mesmo se afogar na fumaça venenosa e incessante. Queimam-se os lírios e restam-se apenas vestígios do anoitecer. Pois, quando o poder de sua alma foi entregue, correu em direção ao som mais profano. Retida em seus fios dourados, olhou para trás e resolveu seguir adiante.

Agora paga pela vontade de se encaixar em um mundo de papel, em seu próprio castelo de areia derretido. E, antes de tudo, o mundo pára outra vez e nada mais faz sentido. A ventania escapa, junto com as verdades que lhes são ditas. São apenas chuvas de impropérios e pedidos falsos, comungando com a concupiscência latente que habita sua carne tola.

Sim. Cansou de todas as mazelas provocadas por acreditar na próxima palavra falsa, coberta de escárnio, dúvida, sobressalto. Deseja fugir e emaranhar-se nas ondas dos mares petrificados. Quer de volta o vento que tanto estima. Quer tempestade rubra e sem dor, madrugadas ensandecidas, agora já adormecidas pelo poder da enfermidade.

A escrita imprime-se no tempo. Os versos são jogados para o destino e, tudo agora é apenas o hoje, com respingos do amanhã. E que se calem todas as sentenças, pois apenas na sua alma retorcida de dor pelo passado é que as reais intenções são conhecidas. O mundo mudou, as flores já brotaram e os lírios incendiados permanecem pálidos e guardados. Agora, basta abrir os olhos. Agora basta deixar que as luzes ressoem pelo o espaço. Esverdeadas, sempre esverdeadas.


terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Um pouco de ficção


A névoa da dúvida se emaranhava em seus pensamentos enquanto tragava mais um pouco da fumaça cinzenta e proibida. Os olhos marejavam e as incertezas penetravam a aura.

Os sinos badalavam em sua confusa mente e perdia o sentido quando fitava a própria imagem distorcida. O vento seguia seu curso. Os pássaros pareciam cantar a mesma canção. Porém, tudo se transfigurava, cobria-se de cinza, encharcava-se de memórias, erros e acertos.

A madrugada é sim a mais cruel. Nela o coração dispara e som desvanece nas lembranças do hoje, do ontem, do que poderia ser e será. Não há metáfora que possa alcançar a amargura de ser quem é ou a tortura de decidir sem reconhecer qual é o melhor passo. 

A onda de calor interno se espalhava pelo ambiente. Mais uma música e conseguiria adormecer. Ou seria devorada pelas palavras. Suas ou não. Precisava fugir, correr o mais rápido que pudesse. Ainda assim lembrava, todo segundo, da jaula que ali a prendia. Aquela coroada pelo cotidiano. Aquela de garras ferozes, criadas somente pela imaginação pulsante. 

Acorrentada pelas flechas candentes do inconsciente jurava, urrava, clamava por mais uma gota daquele suplício, do mais doce precipício, do mar revolto de neblina e fantasia. A escrita estava sim contaminada pela urgência, pelos sussurros, por mais um dia que se aproximava. O amanhã, coberto de fel, chegava frenético. As lanças já estavam apontadas para o coração descompassado. A próxima fala já estava condenada.

Gritava e nenhuma resposta chegava. Os zumbis apagavam-se da caminhada, porém o gosto amargo do veneno derramado continuava a se espalhar. Agora não mais ébria. Agora dilacerando qualquer traço de displicência. Agora vivendo o que sempre foi.

Esperando o silêncio fitava o horizonte. Balbuciando cantigas para o destino se desprendia das amarras guardadas na alma e acalentadas apenas pela ventania. Aguardava. A tão esperada resposta do vento. A tão desesperada e suposta sensação do tempo, que se cala, emudece, não mais resplandece. Parecia, naquele momento, que tais tolices dominariam sua mente, fervente, incandescente, coberta apenas de desejo e dúvida.

E o sol já estava quase nascendo. E o amanhã já se fazia presente. E agora era tão somente a madrugada e ela.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Sobre o silêncio e o vento

 A cena. Como num filme corria em direção do último horizonte, a última fagulha de esperança. Depois a conclusão certeira e o desengano. Não importava mais o que fez, já havia se apagado a chama do passado, presente e o possível futuro. Em seus olhos enxergou o mar da decepção. Já não existe jornada para seguir. Ainda assim junta todo o brilho esverdeado que lhe resta e canta a última frase daquela canção que um dia foi sua.

Talvez tudo esteja errado ou certo demais. Talvez as flamas do bosque cintilante tenham cegado a compaixão do silêncio. Talvez. Mergulha-se de incertezas para que renasça. Afinal, outro ciclo se inicia. Já não tem mais torre alguma que desabe para todo o sentimento aprisionado em seu coração. Também jamais conseguirá banhar-se de frieza.

 Se a ventania vier abrirá os braços e se entregará ao completo. Se todas as cálidas sensações cessarem buscará em si a emoção necessária. Sim, pois se nessas sentenças precisou arder agora segue mesmo com dúvidas inabaláveis. Entregou todo o conteúdo presente em seu cálice, proclamou aos deuses, zumbis, sacerdotes e fadas quais eram seus desejos, cumpriu pactos, travou batalhas, mas ainda sim viu o pranto verter do silêncio.

 Agora os fatos são turvos e o outrora se desfaz perante suas vistas. E podem sim ser somente palavras jogadas ao vento e que venham os julgamentos, pois estes são certeiros. Entre um suspiro e outro, mais outra batalha cinzenta, para que venha o sorriso farto e o júbilo intocável. E se o silêncio quiser chegar e ficar para sempre será apenas prazer o resto do caminho. Porém agora resta esperar o tempo e o destino e as suas próximas ações. Sim. Os passos seguintes da fada de cor verde. Sim. A verdade é muito óbvia basta abrir os olhos e compreender todas as equações e seus resultados.

 A força lhe foi dada no primeiro respiro, quando foi entregue ao poder do vento. Alimenta-se dele e volta para a realidade. Alimenta-se das palavras e segue. Não há veneno que possa macular aquilo que mais acredita. Não há fogo, muito menos água agora. Existe a ventania e esta nada pode alcançar, apenas quando enamorada está e tudo já se transforma em clichê e tolice.

 E coberta da maior tolice de todas, batalha firmemente para encontrar o silêncio outra vez. E ele virá. Assim espera.



sábado, 21 de dezembro de 2013

Marcas


Os gritos dos sinos, os desesperados gritos dos sinos. As madrugadas incendiadas. Verte-se em euforia pela chegada da alvorada. Sim. O encanto permanece ainda que petrificado.

 Entre uma e outra sinfonia desperta para vida mais uma vez. Se ao menos soubessem que clamores são precipícios. Se ao menos conseguisse um pouco de coerência.

 Permanecerá acorrentada nas eternas dúvidas, nas incertezas vivas, cálidas, que corroem a pele e determinam os passos. Depois é somente anoitecer banhado em solidão. Se o silêncio deseja partir não tentará prendê-lo. Se as mágoas são maiores. Se a festa já acabou. Encontrará um pouco de chama nos estrondos do amanhecer.

 São dois caminhos. Ambos tortuosos. Ambos incorretos. As ideias são excludentes e nesse mar candente deixa que a ventania arrebente qualquer aprisionamento. Fortalece a alma e toma goles largos de frieza. Agora sim será aquilo que vibra em sua sentença cruel. Agora. A partir do próximo suspiro. E lutará até o fim. Nunca existiu retorno e não terá salvação. Quando abriu a varanda para que a água adocicada entrasse já não se pertencia.

 Deixa os caminhos se entrelaçarem. Compactua com o destino. Já não sela mais pactos. Cala as juras. Incendeia o tempo. Conecta-se com a amargura. Para nunca mais sentir. Para nunca mais escutar julgamentos mal concebidos. Para não mais precisar provar nada, se entrega ao rumo que lhe deram e cumpre suas marcas cotidianas. Sim. A reles cumpridora de marcas. Sim, esta que não olha nos olhos e adoece de solidão. Sim. Aquela que jamais dirá as tais suaves palavras outra vez.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Despertando

 E o céu desvaneceu com a alegria trazida pelo seu encanto. E o mundo agora era festa com a energia daquele sorriso. Em seus sonhos mais loucos delirava com uma fantasia que se tornou realidade com sua chegada. 

Depois se emaranhou com a impureza dos dias que viriam, depois esqueceu que era exatamente aquilo que desejava com tanta força.

Os olhos marejados, em flamas, partiram a alma e reconstruíram a jornada quase estilhaçada pelo cansaço do caminho. Com os pedidos atendidos era preciso que a fada concedesse um pouco da sua luz esverdeada. 

Enfim compreendeu o clamor sussurrado nos ouvidos. Para que as luzes resplandecessem teria que trilhar a trajetória completa, sem atalho, sem lamúrias, sem medo do risco do próximo passo.

Pulou de tantos abismos que já possuía receio de jogar-se no próximo. Agora de mãos dadas com o infinito poderia ir sem pestanejar. Sim. Não há razão para segurar-se. São dois caminhos que seguem juntos. É uma única corrente que pulsa na mesma vibração...

Os olhares se encontram e relembra o que é o júbilo. Outra vez o sente percorrer a aura. Gargalha, tola. As lágrimas cobrem a face. Enlaça a sorte. Não deixa que parta. Conversa com a lua e despede-se aos poucos da fumaça. Sim. Agora uma nova página se abre. Sim. Agora o horizonte não mais se esconde. Até o último suspiro. Até os últimos dias de sua vida.


terça-feira, 19 de novembro de 2013

Colorful

 É o abismo aprisionado em chamas. É um pouco de chagas para obter o próximo sorriso. É um pouco de festa para que as trevas cheguem. Sem fim. Sem limites. Sem rumo ou horizonte. Um ponto final coberto de reticências, um mar que afaga os cabelos alheios e o brilho reluzente da lança fina mergulhada nas correntes novamente possuídas.

São tolices da nova alvorada e impropérios que desfazem a jornada. Muitos caminhos imersos em pranto seco, em descaso com a solidão. A inimiga das horas agora não se faz mais presente. Os sátiros corroem a madrugada. A fumaça se finda e o vento não bate em sua face.

Silêncio e um pouco mais de relutância em seguir por esta estrada outra vez. A lua já desapareceu nas brumas daquele faiscante olhar. Suspiros gélidos acalentam a noite eterna. Quente somente nas incertezas de ser quem é.

Números e mais números. Dias acumulados. E a prisão é o maior prêmio já conquistado. A varada já não lhe pertence e agora não mais no sentido figurado. Arrebentou mais uma corda presa aos pulsos e jogada na ventania secreta.

Os mares petrificam-se para que passe. Regressa ao passado muito distante. Volta para a torre, refaz promessas, celebra o outrora cálido e intocável. A aura arde e luta para não cair do precipício. Sim, está quase lá. Não há mais solução a não ser aceitar as decisões descompassadas do tempo cruel. E são muitas bobagens para um pouco de amanhecer que já não tarda em chegar.

Sem equilíbrio, passo ante passo, espiando pela fresta da alma incendiada, recobra os sentidos, recupera a visão e mergulha outra vez na deliciosa ilusão repleta da mais amarga fantasia disfarçada de doçura.